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Posts Tagged ‘infância’

Participar de concurso literário é uma atividade recente em minha vida. Tudo começou com um conto que escrevi para o concurso da Livraria Cultura em 2008: Um gato, o mundo e a deliciosa imaginação infantil. Foi a Renata Cardoso, autora do A Fadinha Carolina, que me convidou e eu topei. E #curti. Depois disso, tomei gosto e sempre que aparece algum é motivo pra criar e botar a imaginação pra fluir.

O segundo foi o concurso do blog Fio de Ariadne e neste, para minha felicidade suprema, ganhei o primeiro lugar com o conto O sapato. Em novembro de 2010, participei de um concurso cultural do site Ortopé Eco e lá fui remexer nas gavetas da memória e nos arquivos da infância. De lá pesquei minha menina de tranças, que plantou um pezinho de feijão no copo com algodão molhado. Boas e ternas lembranças.

Saiu o resultado e, dessa vez, não levei. Uma grande pena porque os contos ganhadores virariam um livro. Lamentei muito. Talvez o regulamento não estivesse muito claro ou eu que não entendi bem, porque os ganhadores foram histórias-depoimento. E a minha era uma ficção, baseada em minha vida real, mas certamente, ficção. Enfim, não importa. O que realmente vale é o conto que nasceu. Mais um para meu repertório, que compartilho aqui com todos vocês, que me leem. Até o próximo concurso.

O pé de feijão

Nina chegou da escola radiante, segurando cautelosamente um potinho de vidro, onde se via um chumaço de algodão molhado. A mãe foi logo perguntando o que era aquela novidade. Decerto achou que seria mais uma bugiganga dessas que as crianças vivem a inventar e que, na sua opinião, só serviam pra entulhar a casa. Mas a menina, orgulhosa de si, jogou suas longas tranças para trás e foi logo explicando sua aula prática de ciências biológicas:

– Mamãe, hoje aprendi a plantar feijões! – e apontava o dedinho indicador para o algodão.

– Feijões? Só vejo aí um algodão ensopado. – retrucou a mãe meio descrente.

– Sim, você está vendo só o algodão, mas dentro dele tem um grão de feijão e a professora Cecília disse que, com o tempo, o feijão vai brotar e crescer. Será meu primeiro pé de feijão particular!

A mãe torceu o nariz e voltou para o fogão, afinal, o seu feijão estava no fogo a cozinhar. Havia mais o que fazer.

Nina procurou um canto na janela do seu quarto, para acomodar sua pequenina lavoura. Deitou na cama e ficou olhando o potinho, pedindo que o tempo fosse generoso e passasse bem rápido, para que a semente germinasse e crescesse logo.

– Cresce, cresce… cresce… – repetia baixinho em sua ansiedade infantil. E foi assim que um sono súbito foi tornando pesadas suas pálpebras, escondendo os olhinhos verdes da menina.

Adormeceu. E sonhou. Sonhou um sonho encantado, em que havia plantado um grão de feijão no jardim de casa. E, antes que o sol tivesse se posto, o pé de feijão já estava do tamanho do coqueiro mais alto que já vira no sítio do seu avô. Mais que ligeira, subiu pelo pé de feijão, folha por folha, subindo, subindo, cada vez mais alto. E, quanto mais subia, menor ficava sua casa vista lá de cima,

o jardim, as pessoas e até seu gatinho Flufi, que ficou tão minúsculo quanto uma formiga. Enfim, chegou nas nuvens.

– Onde estou? – perguntou a si mesma.

Uma gaivota de nome Fernão, que passava naquele momento, foi quem parou seu vôo para responder:

– Você está no céu, ora, nunca viu?

– Ver eu já vi, mas lá de baixo, não aqui pertinho.

– E pra onde você vai? – perguntou a gaivota meio apressada, pois estava de viagem marcada para conhecer o mundo.

– Não sei, só plantei um pé de feijão e ele cresceu tanto que cá estou.

– Bem, se já está aqui, que tal seguir viagem comigo? – sugeriu a gaivota.

– Mas não tenho asas, nem sei voar. – respondeu.

– Ora, isso é bem fácil. – e num movimento de asas jogou sobre a menina um pó luminoso como

relâmpago em dia de tempestade, encolhendo-a de repente.

– Como você fez isso? – perguntou surpresa, enquanto saltava do pé de feijão e se ajeitava nas costas da ave.

– Tenho meus truques – retrucou a gaivota, piscando o olho, enquanto voou rasgando uma nuvem branquinha, que mais parecia o algodão em que a menina havia plantado o feijão.

Saíram pelo céu azul, planando sobre florestas, rios caudalosos, cachoeiras, desertos, vales cheios de flores e imensas montanhas pelos cinco continentes. E Nina aprendeu sua melhor lição: a natureza era a maior herança que o planeta poderia lhe deixar.

Subitamente, quando estavam descendo num vôo rasante sobre o mar, gotas de água molharam seu rosto. A menina acordou com seu gatinho a lamber suas bochechas. Esfregou os olhos,

voltou-se para a janela e lá estava seu pé de feijão. Um pequeno broto começara a nascer e Nina sorriu satisfeita:

– É minha primeira arvorezinha! – exclamou feliz.

Era só a primeira árvore, das muitas que plantaria pela vida afora, quando chegasse o tempo de amadurecer.

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Acordei, dia lindo. Sol, céu sem uma nuvem. Dia das Crianças. Elas bem que mereciam esta paisagem soberba e alegre. Um show da mãe (generosa) natureza. Fui até o Campo de São Bento, ver o movimento, ver as crianças, pegar um pouco desta boa energia que tanto me faz bem. Pra acompanhar, pensei: – Vou levar um livro! Puxei o primeiro que vi na estante e, por uma dessas “coincidências”, era um da Ana Maria Machado: “Bem do seu tamanho”.


Livro em punho, ecobag de pano lindinha da Anima Mundi, lá fui eu pela estrada afora. Antes de ir para as reinações (não as de Narizinho, mas as minhas mesmo), uma passadinha na Igreja da Porciúncula de Sant´Anna, pra pegar uma benção de Nossa Senhora Aparecida, grande homenageada do dia, e dos santos protetores das crianças, ou Ibejis, o que, pra mim, é a mesma coisa. O importante é ser benção, não é?

No Campo de São Bento, visitei a feirinha de artesanato. Tantas coisas lindas e mais ainda as coisas para crianças e bebês. Só fez aumentar a vontade de ter meu filhote. Como não tenho e meu sobrinho já tá muito grandinho pra certos bibelôs, resolvi comprá-los pra outra criança: a minha. Comprei dois bonequinhos de pano muito fofos e bem feitos, os quais batizei de Ted e Lupi. Sim, me dou o direito de comprar o que eu bem entender no Dia das Crianças. Aliás, não só neste dia, mas em qualquer outro, porque eu mereço mesmo. :-)

Da feira fui direto pro parquinho, entupido da meninada correndo e gritando loucamente. Alguns diriam que era uma visão de Dante, mas eu não. Como já dizia “sir” Ronald McDonald, “amo muito tudo isso”. Fui olhando os pequenos se divertindo na pista de patins, no coreto (sim, o Campo de São Bento tem um lindo coreto, como nas cidades do interior!) e nos brinquedos elétricos. Eu disse elétricos, não digitais (não havia nenhuma criança com gameboy, ipod, ipad e outros Apples).

Eram brinquedos como o carrossel, o elefantinho e o carrinho de corrida, ideal para a criançada miúda (que não pode andar nos brinquedos para os maiores).


E o super-mega-hiper-master “carrinho que bate”? Oficialmente é chamado de Auto-pista. Na minha infância, brinquei muito sob as árvores grandiosas do Campo de São Bento e disputei muita corrida neste brinquedo, com a adrenalina a mil, fugindo dos meus amigos meninos, que sempre queriam destroçar os carrinhos das meninas (sempre a guerra dos sexos!).

Também me recordo do sobe e desce do carrossel com seus cavalinhos coloridos. Era um tempo feliz, sem pressa pra acabar.

E de como a gente ficava à beira do lago pescando peixinho com uma rede fininha. Pescávamos os peixes coloridos e os guardávamos num vidro de maionese com água. Bem pouco ecológico, confesso, mas como éramos felizes. O chafariz era um evento à parte. Esperávamos ansiosamente ligarem os jatos de água, parte por parte, até completar o último, mais alto, ao centro. Cheguei a passar um dia inteiro à beira do lago, desenhando o chafariz para concorrer num concurso promovido no local. Lembro ainda do desenho com toda nitidez e da minha mãe que me acompanhou, incansável, o dia inteiro: de manhã, na volta pra casa pra almoçar, e no retorno de tarde, pra que eu completasse minha obra de arte.

Agradeço a ela pelo incentivo à minha criatividade, ainda que eu não tenha ganho o concurso “por pouco”, como disseram os organizadores. Posso não ter ganho um prêmio, mas levei pra casa a certeza do meu talento, reconhecido de perto pelo olhar amoroso e companheiro da minha mãe.

Vi também nesta minha incursão no Dia das Crianças algumas não tão felizes, conflitos de família, pais agressivos, crianças bem mal-criadas. Mas é a vida, nem tudo é perfeito.

Sentei em um banquinho na sombra e fui curtir meu livro, comendo uma pipoca salgada. “Era uma vez uma menina. Não era uma menina deste tamanhinho. Mas também não era uma menina deste tamanhão. Era uma menina assim mais ou menos do seu tamanho.” Que surpresa! O livro falava de ser pequeno grande e ser grande pequeno. Tudo a ver com meu dia de criança no Campo de São Bento. Que bom que a vida é cheia de boas coincidências, como esta. E que ainda mora uma bela criança em meu coração, que tem o tamanho da minha espontaneidade, minha criatividade e minha alegria. E a sua criança, por onde anda?

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Sou neta de jardineiro. Um homem que cuidava de uma chácara e plantava legumes e hortaliças para vender. Sou filha de serralheiro, que aprendeu com o pai a respeitar a natureza da qual ele (o pai) dependia pra sobreviver. Cresci morando em casa, com quintal, árvores frutíferas, plantas, ervas medicinais e animais. Minha mãe é o que chamam por aí de “dedo verde”. Tudo que ela põe a mão brota, cresce. Também, pudera, ela conversa com as plantas, trata-as como filhos queridos. É bonito de se ver…

Quando eu era criança, havia gaiolas de passarinhos em casa que meu pai todo dia pendurava nas árvores e de noite botava em local coberto da friagem. Eu lavava o piso das gaiolas e espetava a metade de um jiló ou maxixe na na grade . Achava os passarinhos lindos, eram biquinhos de lacre e outros que não lembro o nome. Com o passar do tempo, porém, entendi que aqueles bichinhos fofos que alegravam minha infância eram tristes, porque estavam presos, privados de terem a vida que gostariam de ter. Foi então que, com a autorização do meu pai, soltei-os. E foi uma sensação muito boa ver seu vôo para a liberdade.

Meu pai, sempre que precisava cortar uma árvore, porque estava muito alta e ameaçando nossa casa, pedia licença. Não para nós, humanos da casa. Pedia licença para a árvore! É muito respeito com a natureza. Aquilo me encantava muito. Os cães, patos, galinhas, gambás e até micos que apareciam no quintal, mesmo a gente morando em ambiente urbano, faziam parte também dos meus dias de criança. E os gatos? Esses eram um capítulo à parte, um amor incondicional que sempre tive e tenho até hoje.

Essa história é a minha história de contato com o meio ambiente, muito antes de se falar em sustentabilidade, em ecologia (que só vim a estudar na escola, já adolescente), aquecimento global e pegada ecológica. Aprendi a ser natural com o contato com a natureza. Aprendi a respeitar as formas de vida que estão abaixo de nós na cadeia evolutiva. Aprendi a ser mais humana.

Foi em 1992, quando já estava na universidade, que ouvi falar de uma tal de Eco 92 (vide logo e posters comemorativos do evento abaixo), que movimentou o Rio de Janeiro e o meu trajeto diário pelo Aterro do Flamengo até a Escola de Comunicação da UFRJ. Líderes de todo o mundo estariam reunidos para propor uma agenda de compromissos, visando à preservação do planeta. Também recordo de um comercial a que assisti no qual um índio tinha seus cabelos raspados ao som de uma motosserra (se você tem o vídeo deste comercial compartilhe aqui). Acho que foram os primeiros momentos em que tive contato mais direto com a questão ambiental.

Ainda a pouco tivemos a COP 15 (são tantas siglas!) e hoje vivo em busca de artigos, sites e notícias sobre o meio ambiente. Faz parte dos meus temas favoritos a sustentabilidade e o futuro do planeta. Vejo que tudo isso que sinto agora vem lá de trás, de raízes muito bem fincadas na minha consciência de menina travessa, brincando no quintal de pé no chão. Hoje, sou uma mulher que acredita em uma nova proposta de vida para todos. Acredito que podemos mudar e construir um mundo melhor para nós e as próximas gerações. Um mundo com baixas emissões de carbono, com nossos recursos hídricos protegidos, com a biodiversidade respeitada, com florestas ainda de pé. Um mundo ético e sustentável. Estamos comemorando o Dia do Meio Ambiente em 5 de junho (World Environment Day). Que seja uma data para nossa reflexão mas, sobretudo, para nossa ação. Vamos lá, ainda há tempo!

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Quando eu era menina, ficava olhando pela fresta da cerca de madeira a casa do vizinho de fundos. Ele era um senhorzinho que mais parecia um Preto Velho. Negro, cabelos grisalhos, fala rouca e mansa. Devia ter uns 80 anos talvez.

Minha mãe, que sempre foi uma pessoa que se importou com a pobreza e escassez alheia, mesmo não tendo ela própria os recursos que sonhou, todo dia à tarde dava ao homem um pouco do café que fazia. Ele passava sua caneca de alumínio amassada e velha pela cerca e minha mãe enchia de café, dando um pouco de calor e sabor aos dias daquele homem. Eu gostava daquele velhinho. Achava-o simpático e tinha algo de misterioso poder espiá-lo pela fresta da cerca. Sabe como são essas brincadeiras de criança, de ficar querendo desvendar os segredos escondidos…

O senhorzinho fazia aniversário no dia 4 de dezembro: dia de Santa Barbara, como minha mãe sempre ensinou. Ela repetia a cada ano que, no dia da santa, sempre caía temporal. Minha mãe tinha razão (e olhe que naquela época não tinha nem sinal de aquecimento global e mudanças climáticas!). Lembro que, nesta data, muitas e muitas vezes caía uma chuva bem forte, com direito a raios e trovões tão intensos que uma vez até vomitei, de tanto medo. Faltava luz e acendíamos velas. Minha mãe tampava os espelhos com panos, porque dizia que atraíam raios. E não nos deixava pegar em nada de metal durante os temporais. Deitávamos na cama e nos acolhíamos em seus braços, eu e meu irmão.

Só com o passar dos anos descobri que Santa Bárbara, no sincretismo com a Umbanda, é Iansã: a senhora dos ventos e tempestades. Finalmente entendi porque no dia 4 de dezembro sempre caía uma chuva torrencial (este ano não caiu, mas deve ser culpa das tais mudanças do clima!). Talvez fosse só a proximidade do verão, não sei. Mas o fato é que aprendi a respeitar, e muito, a rainha das tempestades. Por isso, em homenagem ao seu Guilherme, o senhorzinho que ganhava o café da minha mãe, já falecido, a Santa Bárbara e a Iansã, escrevi este post e deu a maior saudade da minha infância. Que as tempestades continuem varrendo as energias ruins pra longe e os ventos tragam pra nós boas energias. Eparrei, Iansã, eparrei!

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Cosme e Damião“Ali tá dando! Ali tá dando! Coco de rato vai levando!” Era assim que eu e a meninada da minha infância brincávamos de enganar os coleguinhas no dia de Cosme e Damião. A festa era muito esperada. Eu e meu irmão saíamos cedinho pra correr atrás de doce. A gente andava pelo bairro catando casas, carros, pedestres, qualquer aglomeração que indicasse a presença daquelas delícias. O meu favorito sempre foi o tal “coco de rato”, mas também gostava de suspiro, cocada branca, pirulito, bala juquinha – amo até hoje! – e outras iguarias. Eu e meu irmão não pegávamos os doces e comíamos na hora. A gente era disciplinado. Corria pra levar o saquinho pra casa. Juntava todos na mesa e contava no final do dia o resultado de nossos esforços! (A cada ano o desafio era pegar mais saquinhos que no ano anterior.) Depois, despejávamos numa tigela e íamos comendo os que a gente mais gostava. Era efetivamente “doce” o sabor daquela vitória.

Certa vez, com uma amiga, peguei carona num ônibus que passava na minha rua e que deixou a garotada entrar pela porta da frente, afinal era dia de Cosme e Damião. Eu fui. Mas, não me dei conta de que a volta não seria tão fácil quanto a ida. Descemos no Campo de São Bento e tentamos achar os cobiçados doces, mas não vimos ninguém oferecendo. Quisemos ir embora mas os ônibus de lá não nos deram carona de volta. Senti um frio na barriga: – Como iria voltar pra casa? Lembrei de uma conhecida de minha mãe que morava perto e fomos lá pedir ajuda, eu e minha amiga. O filho dela nos deu o dinheiro para pagar a passagem. Quando a gente é criança não tem muita noção dos perigos. Mas deu tudo certo, afinal, Cosme e Damião protegem os pequeninos!

Este ano, fui numa festa no meu centro e senti uma vontade enorme de comprar uns doces pra dar, até como forma de agradecimento pela proteção que minha mãe teve no seu acidente. Mas tinha que ser naqueles saquinhos de papel de antigamente. Hoje em dia até o saco de Cosme e Damião é de plástico! Mesmo quando se fala tanto de reciclagem e sustentabilidade. Ah, não tem a menor graça! Fui numa loja de doces, comprei balas e pirulitos e achei o saudoso saquinho de papel com o desenho dos Santos. Fiz 10 saquinhos e no dia 27 de setembro, um domingo, saí pra levar minha mãe para um passeio na Florália e pensei em dar os doces pra alguma criança pelo caminho.

Chegando lá, avistei um casal com sua filha. Me aproximei e perguntei se poderia dar um saquinho para a garota. Resposta: “ah não, obrigada”. Não entendi bem a recusa, mas logo avistei outro casal que chegava de carro com os dois filhos. Perguntei novamente: – Oi, vocês aceitam um doce de Cosme e Damião? A mãe: ” Humm.. é melhor não”. Nossa! Nunca pensei que me recusariam os doces que, quando criança, eu sempre sonhei em ganhar muitos e muitos mais! Fiquei bem decepcionada, confesso, e cheguei à conclusão que as pessoas de classe média que frequentavam aquele lugar não iriam aceitar os doces. Decidi então guardá-los para dar na rua, para as crianças carentes que ficam aos montes peregrinando nesta data.

Deixei a sacola no carro e fui entrar para ver as plantas. No meio do caminho, havia um stand com uma campanha: “Adote um animal”. Fui lá olhar e ver se havia gatinhos (que eu amo!), mas só tinha alguns cães pra adotar, uns amputados, outros filhotes, outros mais com carinha de pedinte, que era difícil resistir. Junto deles, um grupo de crianças especiais: um cego, uma na cadeira de rodas e outros com deficiências físicas e mentais. Uma jovem segurava um filhotinho de cachorro preto e eu me abaixei pra fazer um carinho no bicho. Foi então que lembrei dos doces! Perguntei: – Você quer uma bala, um doce? A menina fez que sim com a cabeça. Voltei no carro, trouxe os saquinhos e, feliz, distribuí a todas aquelas crianças que, mesmo sem conseguir falar direito, pelas inúmeras limitações que tinham, se esforçaram para dizer um simples: obrigado!

Esse é o verdadeiro espírito de Cosme e Damião! Saí de lá me sentindo nutrida e feliz, como quando saboreava os queridos doces de minha infância. E, pra completar a alegria, dois dias depois chego em casa do trabalho e havia um saquinho de doce na minha cômoda (foto)! A vizinha me dá desde que eu tinha tranças. Isso já faz mais de 30 anos… Sabe, eu cresci, mas quando a gente tem fé, Cosme e Damião não esquecem da gente. Salve todas as crianças! Salve Cosme e Damião!

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o homem que amava caixas“Era uma vez um homem. O homem tinha um filho. O filho amava o homem. E o homem amava caixas.” Assim começa uma bela história, que tive o prazer de conhecer numa sessão altamente terapêutica em minha análise. O livro se chama “O homem que amava caixas”, uma das pérolas escritas por Stephen Michael King, um autor sensível e grande ilustrador, de quem aprendi a ser fã.

Levei alguns anos até descobrir que meu pai era “o homem que amava caixas”. Só que suas “caixas” ultrapassavam o papelão e a cola. Eram inventos de todo tipo, como a máquina de fazer tijolos, o telégrafo de madeira e cobre, que fez o maior sucesso na minha feira de ciências da escola, o vulcãozinho de pólvora das animadas festas de São João, os desenhos de castelo, de barco, de animais e outras tantas engenhocas que minha memória coleciona com carinho.

Sem contar – claro! – os brinquedos criados por este grande inventor. Eram bonecos de chuchu e batata com pernas feitas de palitos de dentes, aves pré-históricas em argila e muito, muito mais. Na época da febre de bambolês, toda menina de 7, 8 anos tinha o seu, cada uma de uma cor. Meu pai não perdeu tempo. Fez meu bambolê com uma mangueira. Era preto, mas não tinha o menor problema. Brinquei muito naquele bambolê até que, em um dia feliz de pagamento, ganhei um verde, comprado em loja.

E as histórias que inventava? Tinha a da formiguinha, da baratinha e tantas outras, que transbordavam daquela mente criativa para ganhar vida em minha vida. Lembro-me também do “livro das coisas”, com desenhos de objetos e palavras que os identificavam. Era um livro para os pequenos que estão começando a ler. E lá estava eu, no colo de meu pai, balbuciando palavras recém-conhecidas. Descobrindo um pedacinho a mais do mundo…

Nas manhãs de domingo, o destino era certo: praia! E lá íamos nós pelo caminho a repetir a trova:

“Hoje é domingo, pede cachimbo
O cachimbo é de couro, bate no touro
O touro é valente, bate na gente
A gente é fraco, cai no buraco
O buraco é fundo, acabou-se o mundo!”

(Levei alguns anos pra entender que o domingo “pede cachimbo”, do verbo pedir. Ficava pensando em minha inocência infantil o que seria um “pé de cachimbo” ;-).

Na praia, agarrava-me ao pescoço do meu pai, que só sabia nadar “cachorrinho”. Eram momento muito felizes aqueles. E, na volta, eu e meu irmão entrávamos numa banheira no quintal com água morninha, que minha mãe preparava para nós. O prazer era total.

Certa feita, chegou em casa com um lindo acordeão cor de vinho. Comprou porque alguém queria vender. E, como gostava de música, adquiriu o instrumento mesmo sem saber tocar uma nota. Nunca aprendeu, mas meu coração acelerou quando viu aquele “brinquedo” tão diferente, com dezenas de botões e sons. O acordeão durou pouco, meu pai o quebrou, talvez numa tentativa de acabar também com suas frustrações.

Seu mais recente invento foi um foguete de garrafa pet cortada nas laterais. Conforme o vento batia, o “foguete” girava, como se fosse decolar. Mas, pra ter bastante vento, era preciso fixá-lo num lugar bem alto. “- O coqueiro!”. Sim, meu pai, quase um octogenário, subiu numa escada no alto de um coqueiro no quintal e colocou sua invenção. Ah, e não esqueceu da placa com o nome de sua obra: Foguete Tintan! Acho que ele sonha um dia ir à lua…

Não à toa, cresci uma pessoa criativa – realmente me considero – com tanto amor pelas artes, pela criatividade, pelas histórias, pelo universo imaginário. O mundo da imaginação sempre foi muito interessante, sobretudo para uma criança tímida em uma família com poucos recursos. É como se diz: a necessidade é a mãe da invenção. Se a gente tem absolutamente tudo e basta apertar botões de controle remoto para obter diversão, conhecimento, informação, o cérebro não precisa de muito esforço. Acaba ficando preguiçoso, a menos que façamos algo voluntariamente para estimulá-lo.

eu e papaiMeu pai é um artista, um criador, um homem cheio de sonhos que, infelizmente, não conseguiu realizar. Que vislumbrava idéias e tentava concretizá-las, mas que, muitas vezes, esbarrou nos limites da vida: os financeiros, os morais, os psicológicos. Creio que sua arte sempre foi para ele uma forma de sobrepujar sua vida difícil, talvez uma válvula de escape, ou uma tábua salutar de resgate, mediante dores e dificuldades.

Na história, o “homem que amava caixas” também amava o filho. No meu caso, amava (e ama) a filha, construindo para a menina de tranças um mundo mais feliz, mais colorido, mais amoroso. Um barquinho para que ela pudesse ir a uma ilha feliz, cheia de brincadeiras, sonhos e arte. Sou grata. E dedico este post carinhosamente ao meu querido pai.

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