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Posts Tagged ‘imperfeição’

Quando eu era pequenina de pé no chão, eu cortava papel fino pra fazer balão e o balão ia subindo para o azul da imensidão… Eu tinha tranças compridas como nenhuma outra menina da minha rua. Sim, eram tranças de verdade, que eu usava o ano todo, mas que ganhavam uma importância toda especial nas festas de são João. As minhas amigas usavam aqueles chapéus feiosos de palha com trancinhas coladas. E eu tinha o maior orgulho das minhas tranças naturais! Não foi à toa que me botaram o apelido de “Trancinha”. :-)

Esses dias cheguei em casa pensando em escrever este post sobre as festas juninas e qual não foi minha surpresa ao entrar na vila onde moro e ouvir as crianças gritando: vamos lá, na fogueira de são João! E ao longe avistei as chispas de fogo que iam subindo e clareando por cima do muro da casa do vizinho. Não tem jeito, a fogueira tem um fascínio sobre as crianças. Lembro bem, quando menina, da gente esticando os bracinhos para se aquecer no fogo e tentando saltar por cima da fogueira. O calor aquecia o corpo e o coração…

LP luiz gonzagaNas festas de minha infância tinha de tudo um pouco. A gente se unia pra enfeitar a vila. Buscava bambu num bambuzal distante, cortava bandeirinhas coloridas, passava blush (naquela época era rouge) e fazia pintinhas no rosto, pra parecer mais caipira. Aprendi a fazer balão lata e lembro ainda da textura da cola feita de arroz deslizando em meus dedinhos miúdos para colar o papel de seda. Era um grande trabalho, que não durava mais que cinco minutos, quando o balão “lambia” e caía do céu em chamas. Não tinha o menor problema, o grande barato era a criação e o trabalho de equipe.

Meu pai preparava o famoso “vulcãozinho” feito com pólvora que explodia de verdade e lançava “larvas” de fogo bem alto. O barulho era grande e a nossa algazarra pelo sucesso do experimento também. Morria de orgulho pelo meu pai inventor. Minha mãe tinha um LP, que eu consegui salvar de ser jogado fora, do grande Luiz Gonzaga. Nunca encontrei um disco de músicas de festa junina melhor do que aquele. A capa rosa escondia o pesado disco. Ainda hoje, ao apanhá-lo para fotografar e colocar aqui no blog, boas recordações me vêm. Taí, vou tentar tocá-lo no toca-discos, quando acabar de escrever o post (sim, pessoal, ainda há um toca-discos na minha casa, só não sei se toca naquela rotação antiga). Eram noites felizes aquelas e agora procuro dessas festas tradicionais sem encontrar. As festas juninas de agora não têm nada de caipira. Esquecem até dos três santos homenageados nos festejos: Santo Antônio, São João e São Pedro.

caipiraLembro de uma festa, quando eu tinha por volta de 5 anos talvez. Botei um vestidinho vermelho quadriculado que minha mãe fez. Tinha uma rendinha branca e eu fiquei muito vaidosa vestida de caipira (foto). :-) Nesta época, ainda não havia as famosas trancinhas e sim cachos. De repente, alguém resolve me fotografar. Fiz uma pose e… click! Quando vi a foto, a surpresa: uma meia estava lá em cima e a outra cá embaixo. “– Poxa! Uma caipira tão bonita com as meias ‘erradas’! Porque a pessoa que tirou a foto não viu e pediu pra ajeitar? – pensava eu. Durante muito tempo, aquelas meias fora do lugar me incomodaram muito. Eu olhava a foto e só via as meias tortas. O resto da imagem, não era o foco.

O tempo passou e agora eu entendo que caipira é bagunçado mesmo. Aliás, quanto mais bagunçado melhor, não é? Que coisa mais perfeccionista querer consertar as meias da caipira! Alguns anos foram necessários e um pouco de arteterapia pra eu ver a beleza do torto, do diferente, do imperfeito, do surpreendente e aceitá-la como algo natural. Deixem que minha caipira seja como quiser! Aliás, as meias estavam tortas justamente porque, naquela festa, eu brinquei, corri, fui criança e vivi a vida com a alegria das festas de São João. Então, que me importam meias simétricas? O bom é pular a fogueira, rodar a saia, dançar a quadrilha e ser livre para experimentar tudo isso. Então, amigos, que tal juntarem-se a mim neste refrão? “– Salve a imperfeição! E viva São João!”

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