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Posts Tagged ‘histórias’

o homem que amava caixas“Era uma vez um homem. O homem tinha um filho. O filho amava o homem. E o homem amava caixas.” Assim começa uma bela história, que tive o prazer de conhecer numa sessão altamente terapêutica em minha análise. O livro se chama “O homem que amava caixas”, uma das pérolas escritas por Stephen Michael King, um autor sensível e grande ilustrador, de quem aprendi a ser fã.

Levei alguns anos até descobrir que meu pai era “o homem que amava caixas”. Só que suas “caixas” ultrapassavam o papelão e a cola. Eram inventos de todo tipo, como a máquina de fazer tijolos, o telégrafo de madeira e cobre, que fez o maior sucesso na minha feira de ciências da escola, o vulcãozinho de pólvora das animadas festas de São João, os desenhos de castelo, de barco, de animais e outras tantas engenhocas que minha memória coleciona com carinho.

Sem contar – claro! – os brinquedos criados por este grande inventor. Eram bonecos de chuchu e batata com pernas feitas de palitos de dentes, aves pré-históricas em argila e muito, muito mais. Na época da febre de bambolês, toda menina de 7, 8 anos tinha o seu, cada uma de uma cor. Meu pai não perdeu tempo. Fez meu bambolê com uma mangueira. Era preto, mas não tinha o menor problema. Brinquei muito naquele bambolê até que, em um dia feliz de pagamento, ganhei um verde, comprado em loja.

E as histórias que inventava? Tinha a da formiguinha, da baratinha e tantas outras, que transbordavam daquela mente criativa para ganhar vida em minha vida. Lembro-me também do “livro das coisas”, com desenhos de objetos e palavras que os identificavam. Era um livro para os pequenos que estão começando a ler. E lá estava eu, no colo de meu pai, balbuciando palavras recém-conhecidas. Descobrindo um pedacinho a mais do mundo…

Nas manhãs de domingo, o destino era certo: praia! E lá íamos nós pelo caminho a repetir a trova:

“Hoje é domingo, pede cachimbo
O cachimbo é de couro, bate no touro
O touro é valente, bate na gente
A gente é fraco, cai no buraco
O buraco é fundo, acabou-se o mundo!”

(Levei alguns anos pra entender que o domingo “pede cachimbo”, do verbo pedir. Ficava pensando em minha inocência infantil o que seria um “pé de cachimbo” ;-).

Na praia, agarrava-me ao pescoço do meu pai, que só sabia nadar “cachorrinho”. Eram momento muito felizes aqueles. E, na volta, eu e meu irmão entrávamos numa banheira no quintal com água morninha, que minha mãe preparava para nós. O prazer era total.

Certa feita, chegou em casa com um lindo acordeão cor de vinho. Comprou porque alguém queria vender. E, como gostava de música, adquiriu o instrumento mesmo sem saber tocar uma nota. Nunca aprendeu, mas meu coração acelerou quando viu aquele “brinquedo” tão diferente, com dezenas de botões e sons. O acordeão durou pouco, meu pai o quebrou, talvez numa tentativa de acabar também com suas frustrações.

Seu mais recente invento foi um foguete de garrafa pet cortada nas laterais. Conforme o vento batia, o “foguete” girava, como se fosse decolar. Mas, pra ter bastante vento, era preciso fixá-lo num lugar bem alto. “- O coqueiro!”. Sim, meu pai, quase um octogenário, subiu numa escada no alto de um coqueiro no quintal e colocou sua invenção. Ah, e não esqueceu da placa com o nome de sua obra: Foguete Tintan! Acho que ele sonha um dia ir à lua…

Não à toa, cresci uma pessoa criativa – realmente me considero – com tanto amor pelas artes, pela criatividade, pelas histórias, pelo universo imaginário. O mundo da imaginação sempre foi muito interessante, sobretudo para uma criança tímida em uma família com poucos recursos. É como se diz: a necessidade é a mãe da invenção. Se a gente tem absolutamente tudo e basta apertar botões de controle remoto para obter diversão, conhecimento, informação, o cérebro não precisa de muito esforço. Acaba ficando preguiçoso, a menos que façamos algo voluntariamente para estimulá-lo.

eu e papaiMeu pai é um artista, um criador, um homem cheio de sonhos que, infelizmente, não conseguiu realizar. Que vislumbrava idéias e tentava concretizá-las, mas que, muitas vezes, esbarrou nos limites da vida: os financeiros, os morais, os psicológicos. Creio que sua arte sempre foi para ele uma forma de sobrepujar sua vida difícil, talvez uma válvula de escape, ou uma tábua salutar de resgate, mediante dores e dificuldades.

Na história, o “homem que amava caixas” também amava o filho. No meu caso, amava (e ama) a filha, construindo para a menina de tranças um mundo mais feliz, mais colorido, mais amoroso. Um barquinho para que ela pudesse ir a uma ilha feliz, cheia de brincadeiras, sonhos e arte. Sou grata. E dedico este post carinhosamente ao meu querido pai.

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Tempos atrás, num curso de contadores de histórias no Paço Imperial – o qual eu recomendo muitíssimo –  aprendi boas e calorosas lições. O professor, ou melhor, o contador era “seu” Francisco Gregório Filho, um senhorzinho calmo, voz mansa, barbas longas e branquinhas  (parecia um Santa Klaus tupiniquim), que acordava quatro e meia da madrugada todo dia pra preparar um café quentinho e decorar histórias “pra poder contá-las sem mudar o que o autor escreveu”. Na segunda aula, pediu que levássemos algo gostoso para o lanche, mas tinha que ter sido feito com nossas próprias mãos. Ele sabia o valor da energia do afeto, que impregna tudo que fazemos com boa vontade e amor. Uma figura rara e preciosa, dessas que o mundo teima em extinguir, mas que persistem por aí.

“Seu” Chico nos falava de histórias, histórias que encantam, que tocam, que transformam. E, numa tarde de sol, entre um “era uma vez…” e um “…entrou por uma porta, saiu pela outra…”, nos ensinou a fazer o Livro das Boas Notícias. Dizia que na TV tinha tanta coisa ruim, que a gente precisava fazer o livro das boas notícias, pra colocar nele todo dia uma boa coisa que a gente ficasse sabendo do mundo. Fazer um livro das boas notícias foi uma ótima notícia para mim, acostumada a multiplicar as reclamações e os comentários negativos. Recortamos papéis coloridos, fizemos uma capa bonita e, depois de pronto, era pra gente escrever nossas boas notícias lá.

Confesso que o meu livro ficou só na confecção. No mais, em branco. Nunca escrevi uma palavra. Pena. Mas, sendo uma profissional da web e uma redatora digital, adaptei a idéia, porque ela é muito boa e me tocou, e fiz um arquivo de Word onde fui escrevendo as boas coisas que me aconteciam. Esse doc, porém, também ficou pra trás e nunca mais o atualizei. Por quê? Por que a gente é tão preguiçoso pras coisas boas e tão produtivo pra repassar as desgraças? Basta um crime, uma bala perdida a mais pra se ouvir comentários aqui e ali, no elevador, na fila do banco, em frente à banca de jornal.

Este blog passou perto de se tornar a mais nova tentativa de ter meu livro das boas notícias, só que online. Pensei em fazê-lo com esta finalidade, mas deixei de lado a idéia, para que fosse um espaço mais amplo, que abrangesse outros temas. No final das contas, postarei aqui minhas boas notícias também, para lembrar de olhar o copo “meio cheio” e confirmar que a vida ainda vale a pena, e muito, apesar de tudo de ruim que se vê por aí.

E foi em meio a este sentimento, acalentando a idéia do senhorzinho de barbas brancas contador de histórias, que recebi uma foto que aqui divulgo com prazer. Este é o espírito que desejo alimentar. Trazer boas notícias, boas palavras e fazê-las ecoar. Se tiverem as suas, amigos, me enviem e, sempre que possível, tentarei incluí-las em minha casinha virtual. Abraço a todos e até a próxima boa notícia!

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