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Posts Tagged ‘amor’

Assisti recentemente mais uma vez ao documentário José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, que mostra um pouco da relação do escritor Jose Saramago e sua amada, Pilar Del Río. Confesso que quando vi no cinema pela primeira vez, comecei o filme achando-o um cara triste, depressivo, niilista, orgulhoso até. Mas os minutos foram passando e fui descobrindo a alma sensível e poética deste homem que dedicou toda sua vida às letras.

O cotidiano de um escritor tão falado, para o bem e para o mal, me tocou profundamente. Sua dedicação diária ao seu derradeiro livro: A viagem do Elefante, a intimidade do casal, o cuidado de Pilar para que as críticas negativas não chegassem a Saramago, a triagem das dezenas de cartas e convites para prêmios que o escritor recebia diariamente. Vi uma mulher forte e decidida, mais uma secretária eficiente do que uma esposa. A princípio me assustei com esta dama de aço que controlava a agenda do escritor a ferro e fogo. Achei-a dona do grande Nobel de Literatura e isso me irritou (a mim e, decerto, aos portugueses que a detestam por essas e outras).

Porém, o andamento do filme vai descortinando um casal onde o amor e o respeito mútuo é a tônica. Saramago tinha verdadeira devoção à sua musa inspiradora. Pilar, grande admiração por este homem recluso. Vi uma relação de amor. Sim, amor, como é difícil se achar por aí em qualquer esquina. Numa sociedade onde a banalização do amor é grande, onde as relações são muitas vezes frívolas, passageiras, carnais apenas, ver o amor em sua melhor expressão é muito inspirador.

“Se eu tivesse morrido aos 63 anos antes de lhe ter conhecido, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora”.

Saramago tinha um método de trabalho. Escrevia duas páginas por dia do seu romance (quanta disciplina!). Caiu abalado por uma doença, ficou dias internado, saiu e, finalmente, conseguiu terminar seu livro sobre os pensamentos de um paquiderme. Pensei: o que de interessante pode haver na vida de um elefante? Só a mente genial de um escritor como Saramago pode responder. Vou ler o livro.

Pra não dizer que nunca li Saramago, tive o prazer de cruzar com A maior flor do mundo, para fazer uma seleção para a Especialização em Literatura Infanto-Juvenil na UFF. Livro lindo e delicado, cheio da poesia e profundidade do escritor. Vi no cinema Ensaios sobre a Cegueira, filme de Fernando Meirelles feito a partir do romance homônimo de Saramago. Um filme denso, triste e, a meu ver, muito negativo, já que mostra toda a decadência da sociedade e a capacidade sombria do ser humano. Dois extremos. Um livro para crianças cheio de poesia e otimismo. Um filme que exibe o quanto a humanidade é um erro, pensamento que Saramago expressa constantemente em Jose e Pilar.

Vejam o curta de animação do livro A maior flor do mundo:

Também li um livrinho fino e despretencioso chamado A última entrevista de José Saramago e o que li só confirmou minha impressão sobre este grande autor: é um homem intenso e apaixonado pela beleza das letras. Fechei a última página já com uma lista de títulos dele que desejo ler.

Saramago era um ateu convicto, que não tinha medo da morte nem acreditava num depois. Criticava a sociedade e sua capacidade destrutiva. Mas, veja que paradoxo, ao mesmo tempo mostrava toda a sua beleza e inventividade, reafirmando, ainda que não quisesse, que há Pessoas (com caixa alta mesmo) neste mundo, no melhor sentido do termo. Seres humanos, na melhor concepção da expressão. Saí do cinema naquela oportunidade mais certa que há amor neste mundo de guerras e desvarios. Há amor, há respeito, há poesia e beleza. Obrigada, Pilar. Obrigada, Saramago.

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Demorou pra eu escrever este post. Talvez Freud explique, afinal, vou falar da minha mãe. É maio, não é? É o mês delas. E especialmente é o mês da minha, que quase não está aqui pra comemorar esta data. Explico.

Em 2009 me vi frente a frente com o sentimento de quase perder minha mãe. E não foi nada agradável. Uma moto a atropelou e ela, com seus 38 quilos e 1,50 metros resistiu, bravamente por sinal. Entre um braço quebrado e várias escoriações, salvaram-se todos. Mas isso não é de espantar. Ela sempre foi uma fortaleza, uma fortaleza escondida na fragilidade da aparência e das emoções afloradas, mas, sim, uma fortaleza.

Todo mundo tem uma lembrança de medo de quando ia ao dentista ou ao médico quando criança, não é assim? Eu não. Minhas lembranças são tão boas. Minha dentista, a Dra. Cássia, era uma fofa que dizia que ia pegar minhas tranças pra ela. E no seu consultório tinha brinquedos legais e aquela casinha que a gente entra dentro. Brinquedo caro que eu nunca pude ter, então, quando minha mãe me levava lá com meu irmão, era uma festa pra mim.

Já o médico era o Dr. Jofre, um senhor careca que arregalava meus olhinhos e enfiava goela abaixo aquele palito pra examinar a garganta. Seu consultório ficava num prédio antigo do centro da cidade, com elevador de porta pantográfica e tinha um ar meio de livro de suspense. Sabe deus o que acontecia por trás daquelas portas antigas e corredores vazios. O cheiro do consultório era único. Lembro bem. Eu ia sempre lá com minha mãe quando tinha febre ou alguma daquelas doenças que toda criança tem.

Mas o que tem a ver o dentista e o médico com o dia das mães? Nada. E tudo. Tenho muitas lembranças destas idas e vindas ao dentista e ao médico com minha mãe. E uma das lembranças mais felizes era a volta do médico. A gente sempre passava numa padaria que ficava em frente a estação das barcas e ela comprava um pão em formato de meia lua. Era o máximo! Um pão de lua, verdadeira diversão pra uma criança. Pegávamos o ônibus e eu vinha pra casa deitada no colo dela, partindo o pão de meia lua quentinho com minhas mãozinhas e comendo, vendo a paisagem correr pela janela.

Em outra ocasião, lembro do leite morno que minha mãe me trazia na cama quando eu acordava. Era tão gostoso aquele calor do leite descendo pelo peito! Até hoje beber leite morno me dá uma sensação de proteção e bem estar. Lembranças tenras de muita nutrição, do corpo e do coração.

E o chá de folha de laranja da terra? Só minha mãe, criada na roça e conhecedora das ervas e plantas, sabia fazer o chá com gosto bom. Dissolvia uma coristina no copo, botava açúcar pra adoçar e me dava pra beber nos dias de gripe forte e dor de garganta. Calor, cuidado e proteção.

Minhas melhores lembranças de minha mãe estão ligadas a beberagens e comidinhas, como o prato de feijão fresquinho que ela me dava puro, só com farinha, na volta da brincadeira noturna na rua. O sabor daquele feijão literalmente “amigo” nunca vou esquecer. Aipim frito com café, banana frita, bolinhos feitos com o arroz de ontem, bolinhos de chuva que a gente comia vendo sessão da tarde e brincando de batalha naval… Boas lembranças, muito boas.

Por todas essas, dedico hoje este post a minha querida mãe. Temos muitas diferenças, temos muitas discussões, temos muitos conflitos. Mas temos também muito amor e união. E sei que pra onde eu for, levarei comigo sempre seu legado e seu exemplo de pessoa íntegra, trabalhadora, forte, corajosa e com uma imensa fé no Menino Jesus de Praga, São Judas Tadeu e sobretudo, Nossa Senhora da Conceição. Então, querida Virgem Mãe, te peço: abençoe minha mãezinha no dia de hoje e todas as mães deste planetinha azul.

E você, qual sua melhor lembrança de sua mãe? Contaí nos comentários. Vou gostar de saber. FELIZ DIA DAS MÃES!

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Tenho visto pelas ruas da cidade carros com um adesivo com esta frase: “É bom ser do bem”. Achei que fosse uma campanha publicitária de alguma marca de automóveis, mas não. Descobri essa iniciativa independente no Google, conheça aqui. Mas não importa. O fato é que este lema grudou em minha mente e, vez por outra, me pego pensando e repetindo-o feito um mantra.

Em setembro de 2010, foi lançado o filme Nosso Lar. Fui ver logo no primeiro dia e o que mais me impressionou foi o sentimento com que saí do cinema, que também pode ser resumido neste dístico: É bom ser do bem.

“Diante da noite, não acuses as trevas. Aprenda a fazer lume.”

Quem trabalha em constante contato com os veículos de comunicação e as redes sociais, como eu, é muito exposto a todo tipo de notícia. Em geral, notícias ruins. Crimes, corrupções, violências de toda forma. Parece mesmo que as pessoas têm um prazer sádico em gerar e consumir este tipo de informação. É bem raro encontrar gente a fim de disseminar boas novas. Boa notícia é piegas, não vende jornal. Será que o que vende é sangue, é guerra, é o pior lado do ser humano? Nunca imaginei ver na capa do Globo uma manchete dizendo: Crianças recebem educação de qualidade na rede pública, ou algo semelhante. Mas pra dizer que nossas escolas estão um lixo, tem um monte de gente pronta.

“Não é vantagem desaprovar onde todos desaprovaram.
Ampara o seu irmão com a boa palavra.”

Andava meio desencantada do mundo ao ver tanta barbárie. Até que veio o filme Nosso Lar. E nele vi, ou melhor revi, que é bom ser do bem, que é bom fazer boas escolhas, é bom ter uma vida mais equilibrada e saudável, é legal ser amoroso e gentil. Nossa, quantos bons ensinamentos este filme nos dá. Não à toa, é baseado na clássica obra de André Luis, um amigo que todos nós, espíritas, aprendemos desde cedo a admirar. André é o exemplo do ser humano: falível, equivocado, corrompido, mas decidido a mudar, a crescer e transmitir o que aprendeu para todos. Admiro gente com esta coragem. Temos muito que aprender com ele, não?

Foi como um bálsamo encontrar “os meus iguais”. Gente que quer melhorar e fazer o bem. Foi como uma reafirmação de minha própria identidade. Afinal é bem difícil ser si mesmo quando tem tanta pressão pra gente ser o que não é e gostar do que, no fundo, não gosta. Reafirmei meus conceitos, fortaleci meus valores, me senti feliz em casa novamente: no meu próprio lar. E foi muito bom “voltar pra casa”, como um filho pródigo.

Em outubro, fui na noite de autógrafo do livro do Wagner de Assis, que conta os bastidores da produção do filme. Foi um prazer a mais ver as fotos das filmagens e locações e saber das histórias e desafios que essa equipe dedicada enfrentou para superar os “umbrais” e trazer o filme à luz, à exibição. Admirei ainda mais estas pessoas, que trabalharam com tamanho afinco, desde a concepção do projeto até a divulgação do produto final. Sem dúvida, ganharam “bônus-luz” e nos brindaram com essa pérola.

Nosso Lar é um filme do bem, um filme para se ver, rever e ter em casa para curtir sempre. E agora está fácil, porque já saiu o Blu-ray, o Audiolivro e até a trilha sonora. Então, apreciem, sem qualquer moderação. :-)

“É sempre fácil observar o mal e identificá-lo. Entretanto, o que o
Cristo espera de nós outros é a descoberta e o cultivo do bem para que o Divino Amor seja glorificado.”

Deixo aqui um vídeo com uma mensagem linda para vocês meditarem no bem. Este homem foi outro exemplo vivo de bondade: nosso querido Chico Xavier

* as citações no texto são de André Luis, psicografia de Chico Xavier.

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Faz um tempo aprendi com meu amigo, Leo, sobre a sangha. É um termo que os budistas usam muito e que significa uma comunidade, um grupo de pessoas que se une em prol de um ideal, no caso, para estudar e praticar o dharma, nome dado para designar os ensinamentos do Buda. Se a gente for levar o conceito para nossas vidas digitais, a sangha poderia ser sua rede social, o grupo virtual do qual você faz parte. Eu prefiro pensar na sangha como aquele grupo de pessoinhas mais que especiais sem os quais a gente não vive. Pessoas reais mesmo, de carne e osso, que a gente pode tocar e abraçar e se sentir mais vivo.

“… a Sangha é o solo e somos a semente. Não importa o quanto seja bonita e vigorosa nossa semente, se o solo não nos provê vitalidade, nossa semente morrerá.”


O ano de 2010 já está dobrando a esquina e quero deixar aqui registrado e compartilhar com minha sangha de leitores do blog que foi um ano muito feliz e abençoado, depois de um 2009 bem trevoso pra mim. É como diz a voz do povo: depois da tempestade vem a bonança. E veio mesmo. Mas este ano só foi o ano bom e especial que foi por duas razões: 1. Mudei. E retirei da minha vida um bocado de ervas daninhas que empesteavam meus jardins. Olha, como as rosas floresceram, como os lírios se abriram, como os jasmins exalaram seu doce perfume! 2. Reencontrei minha sangha.

“Se não temos uma Sangha que nos dê suporte, podemos não estar obtendo o tipo de apoio que precisamos para nossa prática, que precisamos para nutrir nossa bodhicitta (o desejo forte de cultivar amor e entendimento em nós mesmos).”


Quando a gente fica muito sozinho no mundo, longe das pessoas que realmente valem a pena, tudo fica mais difícil, as forças se esvaem, os  sonhos se despedaçam ao sabor de qualquer brisa. Mas eu reencontrei minha sangha, meus amigos de verdade, aqueles que me amam com tudo que eu tenho, minhas qualidade e meus defeitos, sobretudo, meus defeitos. Ser amigo só das qualidades, qualquer um é. Mas amigo apesar de… é que pega. É pra poucos e bons. É pra amigo de VERDADE. Se você tem um amigo assim, um que seja, parabéns, você já tem sua sangha.

“A essência da Sangha é consciência, entendimento, aceitação, harmonia e amor.”


A todos vocês, amigos mesmo, que me ajudaram, que se fizeram presentes em minha vida neste lindo ano que chega ao fim, meu mais profundo amor e gratidão. Sem nossa sangha fica muito mais difícil ser feliz. Peço licença para um agradecimento realmente especial para algumas pessoas: Érica, Anderson, Eduardo, Franciny, Wagner, Inácio, Marta, Conceição e Antonio Carlos. Muito obrigada por tudo e pelo elo de amor e boas energias que nos unem.

Feliz 2011, queridos! Obrigada pela audiência em meu blog. Deixo aqui um vídeo de presente. Que no ano que chega possamos agir assim, dando amor de graça, simplesmente por amar. Vejam e se emocionem. Amo vocês.

* as citações neste post são do Mestre Thich Naht Hanh

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A gente se conheceu sem que eu esperasse. Foi através de um amigo em comum, o Jorge. Ele vivia me falando do meu pretendente, de como seria ótimo eu conhecê-lo, de como a gente iria se divertir juntos, porque tinha tudo a ver um com o outro. Eu vivia por aí a contar histórias da família, coisas que me aconteciam, situações engraçadas, outras trágicas, cenas que eu via no cinema, na TV. Ele também sabia um montão de histórias. Como a gente nunca tinha se esbarrado antes?

O primeiro encontro aconteceu na biblioteca da escola, o antigo e tradicional Liceu Nilo Peçanha em Niterói. Eu tinha só 14 anos e era uma adolescente que vivia sonhando com um grande amor. Foi um encontro meio sem jeito, eu estava um pouco envergonhada, nervosa, desconfiada, nem sei. Mas o Jorge me encorajava:

– Vai! Anda, chega mais perto. Ele não morde, ora!

Lembro bem como foi. Lembro ainda do lugar, do cheiro inconfundível e de quando nossos olhares se cruzaram. Enfim, o amor… Amor de novela, de romance, de poesia, amor à primeira vista, à primeira página. Encontrei minha alma gêmea: o livro.

Essa narrativa, que alguns já conhecem, bem poderia ser o começo de um romance que contasse minha história com os livros. Uma história de amor com final feliz, como tantos contos de Cinderelas e Brancas de Neve. Esse casamento deu certo e já dura pelo menos 30 anos. É uma vida… mais que bodas de prata! Mas a sensação que tenho é que nosso amor está apenas começando e que temos ainda muita coisa linda pra aprender um com o outro, pra trocar, pra construir e crescer juntos.

Não tem livros, mas tem quadrinhos

Lá na minha meninice, eu não lia muito não. A minha família não tinha grana pra luxos e livro era supérfluo. Não que não tivesse importância, mas é que o feijão, o macarrão, o pão, valiam muito mais. Afinal, barriga vazia não entende das letras. Meus pais estudaram pouco e nunca se achegaram em livros. Então, o que lembro com clareza de contato com leitura foi em um livrinho de ilustrações, um dicionário pra quem estava aprendendo a ler. Lembro bem de uma cena em que meu pai lia as palavras pra mim, enquanto eu apontava as figuras. Foi desses momentos mágicos de contato entre pai e filha, que os psicólogos tanto falam que os livros proporcionam e incentivam.

Já com mamãe e história foi diferente. Ela me prometeu que, quando eu aprendesse a ler, me compraria revistinhas em quadrinhos. E cumpriu. Tenho até hoje uma caixa da minha coleção de revistinhas da Turma da Mônica, do Maurício de Souza, e do Sítio do Picapau Amarelo, da Editora Globo. Nossa, eu viajava nas aventuras da Mônica, Cebolinha, Cascão, Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Emília… Sim, até pelo Príncipe Escamado eu me apaixonei. Eu e meus amores impossíveis…

O reencontro

Já com mais de 30 anos, resolvi fazer uma pós e encontrei uma especialização na UFF em Literatura Infanto-Juvenil. Ao fazer a inscrição foi uma alegria tão grande, que entendi que meu caminho jamais poderia ser apartado dos livros. Neste curso finalmente conheci Lobato e suas Reinações de Narizinho, Luciana Sandroni, Ruth Rocha, Bartolomeu Campos de Queiroz, Sylvia Orthof e tantos outros. Mergulhei de volta em meu mundo infantil de aventuras, de reinos, de florestas encantadas… Voltei a sonhar.

Hoje, os livros são meus melhores companheiros. Aqueles que me alegram, me tocam, me ensinam, me emocionam. E lá na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, espero entrar ainda mais neste universo e alimentar com novas idéias e novos exemplares o fogo desta minha paixão. Afinal, neste caso de amor, vou deixar de lado o poetinha e seu “que seja eterno enquanto dure” (só?). Prefiro os contos de fadas, para sermos “felizes para sempre”.

Fotos: cadedigital.com

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Estou aqui escrevendo este post inspirada pelas águas de março, que caem lá fora, aquelas mesmas que fecham o verão e banham muitas vezes o dia do meu aniversário. Sim, sou de peixes, do dia 12. Sou das águas, das águas profundas, águas de Iemanjá. Chove. E o verão vai dando traços de adeus. Em breve, será outono e o furor das altas temperaturas terá passado.

Ultimamente, o que mais me apanho a dizer é: “tudo é impermanente”. Aprendi isso com um amigo budista. Significa dizer que tudo passa. Toda dor e também toda alegria. Tudo. Por um lado, é um consolo saber que todo o nosso sofrimento passa. Pra quem está em trevas e não vê luz no fim do túnel, é uma grande benção saber que vai acabar. Mas e a felicidade? E o amor? Esses também passarão.

No filme Ghost, o personagem do Patrick Swayze nunca dizia que amava a esposa. Dizia apenas “Idem”. Seu medo era que o momento de felicidade acabasse. Por isso, nunca conjugava o verbo mais cobiçado: amar. Mas não tem jeito. Tudo, tudo passa. O amor, a dor, a vida. Menos nas novelas e finais de contos de fadas, em que todos são felizes “para sempre” e os maus são punidos, também “para a eternidade”. Só que isso é ficção e a ficção é feita por homens, que ainda não descobriram a inescapável efemeridade das coisas.

Março é o fim do ano astrológico e inaugura o começo de outro giro zodiacal. Finalmente 2010 vai começar de fato e regido por Vênus. E, pra mim, é o fim de mais um ano de vida, desta vez, de uma década. Mas que bom que a impermanência faz nascer algo novo, não é? No Feng Shui se explica isso. A natureza não gosta de espaços vazios. E quando jogamos algo fora, a vida preenche com algo novo. Então, tudo passa. Mas também tudo se renova. Eis a beleza das coisas.

Já que a impermanência é uma lei da vida, é sábio seguir neste mundo com desapego das situações, do que possuímos e das pessoas, principalmente das pessoas. Pra gente, que vive com a ilusão de que temos um trabalho, um amor, um filho, um projeto, crer que não temos absolutamente nada, que nada nos pertence, ao contrário, tudo um dia acabará, no mínimo, porque se transformou em outra coisa, é pura sabedoria. Evita ansiedades, sentimentos de perda, depressões, raivas. Nossa!

Março faz findar um tempo e começar outro. Assim como eu, que morro e renasço neste mês pisciano do meu aniversário. Findo aqui um pedaço de mim, que se transforma, na esperança de um novo tempo, mais feliz, menos apegado, logo, menos sofrido. Vamos lá. Fluir na dança da vida, no seu ritmo e no seu movimento. Feliz ano novo pra todos. Feliz aniversário para mim. E um salve para a impermanência.

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Faz um mês que estou envolvida com o Dia dos Namorados, por conta de trabalho. Passei os últimos 30 dias lendo histórias de amor, imaginando cenas românticas, vendo fotos de milhares de casais felizes e escrevendo, escrevendo muito: sobre almas gêmeas, primeiro beijo, loucuras de amor e afins. Quando me deram o job pensei: Ferrou! Afinal, mergulhar no mundo do amor pra quem está sozinho não é lá muito agradável. Desde pequeno a gente é condicionado a acreditar que um dia vamos encontrar nossa cara metade, casar e sermos felizes. É assim nas novelas, nos filmes, sempre amores lindos e tocantes, uns dramáticos, outros de superação. Só que nem sempre acontece e muitas vezes bate aquela sensação de fracasso: “o que eu fiz de errado que não aconteceu?”.

Mas… (e mesmo nestas coisas de amor, sempre pode ter um mas) aos poucos fui descobrindo que a pesquisa e o contato com o tema, ao contrário do que pensava, estava era me fazendo bem. Tive vontade de ver filmes de amor e peguei vários esses últimos dias. Uns excelentes. Mas, chamou-me a atenção ver que na maioria os casais não terminavam juntos. Ou morria o homem, ou a mulher. Ora de tumor no cérebro (“P.S. Eu te amo”), ora de leucemia (“Um amor para recordar” e “Doce novembro”), ou ainda de outras desgraças. Uma amiga sempre me diz que o casal de “Titanic” só é modelo de amor, porque o mocinho morre no naufrágio. Afinal, eles não conviveram, não tiveram seus momentos de dificuldades juntos, nem contas pra pagar, filhos pra educar, etc. “Assim é fácil amar!” Será por isso os finais com tantas perdas? Talvez os roteiristas possam explicar. Talvez as histórias precisem de finais inusitados, fora do lugar comum e, se todo mundo acabasse feliz pra sempre, como nos contos de fadas, que graça teria? Talvez não desse tanta bilheteria. Sinceramente? Às favas com as bilheterias… Será que não há amor possível com seus prazeres e também com as dores?

Hoje vi “Diário de uma paixão” e seguramente foi o mais tocante de todos os filmes desta minha fase “apaixonada”. Ninguém morre! Ufa! Mas… a mulher sofre de uma doença degenerativa que lhe tira a memória. É bonito ver a dedicação do homem, que se muda para o asilo para ficar perto de sua esposa e contar-lhe toda sua história de amor registrada em um diário. Seu intuito é fazer com que se recorde dele, o homem que sempre a amou. Por poucos minutos, ela lembra e revivem momentos mágicos, mas que logo cessam. É tocante esta cena, quando a memória da mulher foge e ele se desespera, tentanto fazer sua amada “voltar”. O filme tem cenas lindas também. A mais poética é quando os dois ainda jovens passeiam de barco num lago com centenas de patos. Uma imagem que acalenta e merece ser guardada.

diário de uma paixãoSão roteiros assim que nos fazem voltar a acreditar que o amor existe e desejar isso pra gente, principalmente nestes tempos de encontros tão fugazes e vazios. Um amor que vive dificuldades reais, mas que se perpetua, apesar de tudo. Anos atrás, um amigo me contou uma história romântica, que também fala de obstáculos, dores e perdas. Mas no final, o amor realmente vence. Gostaria de tê-la escrito, mas como não o fiz, pelo menos a compartilho aqui com vocês. Feliz Dia dos Namorados!

“Certa feita, o cravo encontrou a rosa. E, neste momento, descobriram o amor. Logo surgiu a primeira adversidade, os espinhos da rosa impediam que o cravo a abraçasse. Pois a cada tentativa, este feria-se. Muitas tentativas fez o pobre cravo para sentir totalmente a rosa e inúmeras e inúmeras vezes teve o seu caule ferido e suas pétalas rasgadas.

– Como posso viver a plenitude deste amor se não posso sentir a minha amada totalmente, como? Pensava o cravo.

A rosa desolada com tal situação pensava em sacrificar-se ao seu amor estirpando os próprios espinhos. Contudo sabia que se assim o fizesse, não viveria muito mais.

– Ah… tanto amor. Falou a rosa.
– Como te quero. Replicou o cravo.

Será que tal amor não veria o seu ápice nunca? Será que o Criador colocou-me com este sentimento o qual nunca viverei plenamente? Questionava o cravo.

Um dia, porém, uma criança brincando, ao chutar uma bola inadvertidamente, acertou o vaso onde estava o cravo projetando-o ao chão.

– Oh, meu amor! Exclamou a rosa já em prantos, achando ser essa a última vez que veria o seu amor.

Passado algum tempo, a mãe da criança apercebeu-se do acontecido e, na falta de outro vaso, replantou o cravo junto da rosa. O cravo necessitou de cuidados especiais, água, luz solar, nutrientes orgânicos e, após árdua recuperação, estava novamente belo e radioso. E muito mais próximo de sua amada. Contudo, perdurava o seu dilema. Não poderia abraçar a rosa. Mas isso já não lhe importava, graças ao “acaso”, ao cuidado daquele humano e ao amor que ele a rosa possuíam, suas raízes misteriosamente uniram-se e passaram então a compartilhar a forma de nutrir-se cada qual na medida exata para que os mesmos nutrientes vivificantes contidos naquela terra pudessem ser absorvidos e manter vivo a sua alma gêmea.

Benício, 05/06/1998”

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