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Faz um tempo aprendi com meu amigo, Leo, sobre a sangha. É um termo que os budistas usam muito e que significa uma comunidade, um grupo de pessoas que se une em prol de um ideal, no caso, para estudar e praticar o dharma, nome dado para designar os ensinamentos do Buda. Se a gente for levar o conceito para nossas vidas digitais, a sangha poderia ser sua rede social, o grupo virtual do qual você faz parte. Eu prefiro pensar na sangha como aquele grupo de pessoinhas mais que especiais sem os quais a gente não vive. Pessoas reais mesmo, de carne e osso, que a gente pode tocar e abraçar e se sentir mais vivo.

“… a Sangha é o solo e somos a semente. Não importa o quanto seja bonita e vigorosa nossa semente, se o solo não nos provê vitalidade, nossa semente morrerá.”


O ano de 2010 já está dobrando a esquina e quero deixar aqui registrado e compartilhar com minha sangha de leitores do blog que foi um ano muito feliz e abençoado, depois de um 2009 bem trevoso pra mim. É como diz a voz do povo: depois da tempestade vem a bonança. E veio mesmo. Mas este ano só foi o ano bom e especial que foi por duas razões: 1. Mudei. E retirei da minha vida um bocado de ervas daninhas que empesteavam meus jardins. Olha, como as rosas floresceram, como os lírios se abriram, como os jasmins exalaram seu doce perfume! 2. Reencontrei minha sangha.

“Se não temos uma Sangha que nos dê suporte, podemos não estar obtendo o tipo de apoio que precisamos para nossa prática, que precisamos para nutrir nossa bodhicitta (o desejo forte de cultivar amor e entendimento em nós mesmos).”


Quando a gente fica muito sozinho no mundo, longe das pessoas que realmente valem a pena, tudo fica mais difícil, as forças se esvaem, os  sonhos se despedaçam ao sabor de qualquer brisa. Mas eu reencontrei minha sangha, meus amigos de verdade, aqueles que me amam com tudo que eu tenho, minhas qualidade e meus defeitos, sobretudo, meus defeitos. Ser amigo só das qualidades, qualquer um é. Mas amigo apesar de… é que pega. É pra poucos e bons. É pra amigo de VERDADE. Se você tem um amigo assim, um que seja, parabéns, você já tem sua sangha.

“A essência da Sangha é consciência, entendimento, aceitação, harmonia e amor.”


A todos vocês, amigos mesmo, que me ajudaram, que se fizeram presentes em minha vida neste lindo ano que chega ao fim, meu mais profundo amor e gratidão. Sem nossa sangha fica muito mais difícil ser feliz. Peço licença para um agradecimento realmente especial para algumas pessoas: Érica, Anderson, Eduardo, Franciny, Wagner, Inácio, Marta, Conceição e Antonio Carlos. Muito obrigada por tudo e pelo elo de amor e boas energias que nos unem.

Feliz 2011, queridos! Obrigada pela audiência em meu blog. Deixo aqui um vídeo de presente. Que no ano que chega possamos agir assim, dando amor de graça, simplesmente por amar. Vejam e se emocionem. Amo vocês.

* as citações neste post são do Mestre Thich Naht Hanh

Queridos amigos, lembram que eu estava concorrendo com um trabalho no 2º Concurso de Contos do Blog Fio de Ariadne? Pois hoje tive a feliz notícia que meu conto, O Sapato, foi escolhido o vencedor por um júri de blogueiros e pelas notas do público leitor do blog. Estou especialmente feliz, tanto pelo prêmio, um livro da Editora Zahar (livros sempre são ótimos presentes!), como pelo reconhecimento de outros leitores à qualidade do meu texto. Foi um prazer único. Agradeço a todos vocês que leram, comentaram e compartilharam meu conto. Muito obrigada, de coração!

Aqui está o conto vencedor. Deixo-o também registrado no meu blog, minha casa.

O Sapato

Andava de pés descalços no passeio ainda úmido pelo sereno da noite. O dia começava como todos os demais para a menina. Aline saía à procura dos restos que sobravam das festas na porta de um grande clube de São Paulo. O que fosse de comer ia direto para uma sacola rota que trazia ao ombro. O que fosse de valor, se é que é possível achar algo relevante no lixo, escondia no bolso da calça surrada.

Remexeu dentro de uma caixa de papelão na esperança de um pedaço de pão ou carne, descartada por algum convidado da festa na noite anterior. Festa chique! Aline vira, escondida por trás do muro, quando mulheres elegantes chegaram em vestidos de baile, esvoaçantes uns, brilhantes outros. Homens em ternos e casacas mostravam os benefícios que o dinheiro pode proporcionar. Aline dormira esperançosa, afinal, uma festa dessas deveria ter muita comida boa e a manhã lhe reservaria algo de proveitoso para seu estômago vazio.

Achou um docinho ainda inteiro – sorte! – que mandou logo pra dentro da boca, antes que algo de ruim pudesse acontecer e lhe tirasse aquele presente. Encontrou uma echarpe vermelha com um rasgo. Provavelmente alguma dama imprudente a descartara após danificar o tecido em uma dobradiça de porta. Guardou-a na sacola, pensando que talvez aquele pedaço de pano pudesse esquentar-lhe um pouco o corpo nas noites frias da cidade grande.

Separou o que podia, guardou o que merecia ser guardado. Já ia indo embora, quando, ali num canto, embaixo de um papelão molhado, pareceu ver algum brilho. Seria um anel, um relógio, um brinco perdido! Seu coração palpitou ante a chance de ser agraciada com tamanha surpresa. Levantou o papelão e viu. Primeiro a fivela cravejada com pedrinhas reluzentes, depois, o restante do sapato esquecido. Era de um tom de telha, um vermelho com ares de marrom, ou o contrário. Não importa. Mas a cor a fez lembrar do telhado da antiga casa do abrigo de onde fugira, dois meses após ter sido internada devido à morte da mãe. Sacudiu a cabeça como a tentar esquecer as más lembranças e apanhou o sapato de tecido forrado.

– Nossa! Que bonito! Quem terá esquecido? E como foi embora pra casa? Descalça? – Aline olhou seus pezinhos miúdos descalços na calçada fria e pensou: – Ah, não é nada tão terrível assim, eu mesma ando descalça por aí e não morri por causa disso.

Pareceu orgulhosa de sua conclusão, pegou o sapato e escondeu-o na sacola. Afastando-se do clube, dirigiu-se ao canto improvisado com papelão sob um viaduto, onde costumava se esconder do frio. Comeu o que havia conseguido em sua busca, enquanto olhava o volume do sapato dentro da sacola, imaginando quem o teria perdido e como. Talvez alguma mulher tenha fugido dos abraços de um homem mais afoito. Será que bebeu demais e tropeçou no jardim na hora de entrar no carro? Como saber? O que sabia era que agora ela era a dona do sapato mais bonito que já havia visto na vida. Apanhou-o e virou-o para examinar a sola. Viu um número. Apesar de não saber ler, conhecia os números e logo identificou: 38. Tinha um grande salto, bem fino:

– Como alguém consegue se equilibrar em cima disso? – pensou, ao mesmo tempo em que enfiou o pezinho sujo no sapato esquerdo, sobrando ainda uns quatro dedos de calçado vazio. Levantou-se e tentou ficar de pé. Era difícil, viu? Improvisou uma pose de dama rica, enquanto ordenava os serviçais imaginários a lhe servirem uma mesa farta de doces, bolos e refrigerante. Deliciou-se com esta visão e já começava a se sentir como as mulheres elegantes que vira na festa, com seus belos vestidos de baile e jóias.

Recostou-se no papelão e fechou os olhos pra ver melhor. De repente, entrava ela própria naquele baile, calçando não só um, mas o par de sapatos grená brilhantes e um belo vestido como jamais tinha visto. Entrou acompanhada por um belo e jovem rapaz, dançou, comeu, bebeu, sorriu como há tempos não fazia. No final do baile, se despediu do jovem que relutou em deixá-la ir. Ela correu por entre as árvores do jardim e, na pressa, deixou o sapato cair junto a uma roseira. Deixou-o pra trás e fugiu. Acordou assustada com alguém cutucando seu pé calçado no sapato.

– Aqui não é lugar pra mendigo. Pode ir circulando. – bradou o guarda com cara de pouca amizade. Aline pegou suas poucas coisas, seu precioso sapato e partiu, buscando outro lugar para sonhar.

Chegou meu prêmio!

Oba! Chegou o livro que ganhei como prêmio no Concurso de Contos. É lindão, uma edição bem acabada, com capa dura e ilustrações belíssimas. A Editora Zahar caprichou. E os contos são originais. Trabalho de alto nível. Vou ler com especial prazer. Muito obrigada mais uma vez!

 

Amo gatos. Quero deixar claro que amo esses bichanos desde que me entendo por gente. Eu, a Dra. Nise da Silveira e tantos outros. E se você odeia gatos (num sei como tem gente que consegue isso), esse post não é lugar pra você. Ou talvez seja… Não, não o expulso daqui, pelo contrário, o convido. Convido a olhar para estes pequenos seres peludos e dengosos com um pouco mais de humanidade.

Ouço muita gente dizer que “gato é bicho traiçoeiro” e outras baboseiras semelhantes. Mas, vou te falar, nada melhor que um gato pra entender a gente e fazer aquele chamego na hora que estamos mais por baixo que sola de sapato!

Sempre tive gatos. Tudo começou com uma gatinha que apareceu em casa. Eu devia ter uns 8 anos, suponho. Chegou e eu me encantei. Foi amor ao primeiro ronronar! A bicha era tão incrível que subia no meu colo, deitava a cabeça em meu ombro e abraçava meu pescoço com a patinha. Eu me achava a mais especial das pessoinhas por ter uma gata que mais parecia gente. Ela cresceu, cresceu e, como diz na Bíblia, se multiplicou. Teve a primeira ninhada. A segunda. A terceira! Quando vi, havia nada menos que 14 gatos convivendo conosco em casa. Pra mim era uma festa. Já minha mãe pensava um pouco diferente…rs Um dia a gata me abandonou e foi morar no vizinho. Rejeição infantil foi pouco! Mas fiquei com os outros 13, até minha mãe exigir que meu pai levasse os felinos pra miar em outras praças.

Os anos se passaram. Tive diversos outros. Cada um tinha uma personalidade, um jeito de ser. Gosto de psicologia e isso se aplica aos animais. Sempre curti analisar o jeito singular de cada um. Com um deles eu até treinava telepatia… Coisas de pisciana-meio-bruxa-que-adora-gatos. :-) Tive um cão só na vida, o Tobi, que se escondia debaixo da cama quando a gente pegava o balde pra dar banho nele. Mas como fui meio que atacada pelo cachorro da vizinha, peguei um trauma e agora prefiro ficar longe dos cães até que me provem que posso confiar neles.

Hoje, depois de um longo jejum de gatos em casa (sempre minha mãe a embarreirar os bichanos), estou com a Nina. Ela não é linda? (Ai de você se disser que não! rs). E espero que ela continue nos dando as alegrias que os animais nos transmitem. Para pessoas idosas, como meus pais, um animal doméstico é um fator importante de tratamento anti-depressão. Pode apostar, o amor que eles nos permitem é muito curador. Meu pai conversa com a gata como se fosse sua neta. Minha mãe, como se fosse sua melhor amiga. Enfim, Nina chegou, conquistou a todos e virou parte da família.

E se você anda procurando um gatinho ou um cão, não compre um. Adote. Há muitos animais pelas ruas, abandonados, humilhados, maltratados. Infelizmente há ainda muita maldade no mundo e os animais, geralmente, são os que sofrem com as frustrações humanas. Pra ajudar você nisso, sugiro que dê uma passadinha no Campo de São Bento pra ver a feirinha que um pessoal muito bacana faz por lá todo primeiro sábado do mês.

Os animais são uns fofos e te olham com aquela carinha de “me leva pra casa” irresistível. Os organizadores da feira são uns abnegados do bem, que recolhem os animais nas ruas, levam pra casa, tratam e tentam arrumar um lar pra eles. Precisam de ajuda também pra comprar ração e outros cuidados. Se você quer fazer algo bom por alguém, taí uma boa chance.

Contribua, adote-os (minha Nina foi achada na rua e colocada pra adoção pela internet). Deus –  e São Francisco de Assis, protetor dos animais – haverá de recompensar você em dobro, com garantia de muitas lambidas, balançar de rabinhos quando chegar em casa ou barulhinhos de ronronar e enroscadas em suas pernas. Não tem preço tanto amor. Desfrute. Adote um animal e seja bem mais feliz.

Foi com grande alegria que recebi a notícia que meu conto está entre os 6 finalistas do 2º Concurso de Contos do Blog Fio de Ariadne. O tema do concurso eram os contos de fadas, assunto que sempre me interessou muito, desde os tempos da formação em Arteterapia.

Meu conto, O Sapato, foi baseado na história de Cinderela, ou, A Gata Borralheira, em algumas tradições. Trata de uma menina de rua que encontra um sapato de baile capaz de fazê-la sonhar…

Para ler o conto e votar, clique aqui.

É preciso escrever um comentário para o post e dar uma nota de 5 a 10, para ter seu voto validado. O vencedor será escolhido por um júri de blogueiros, mas a nota dada pelos leitores contará na pontuação. O prêmio é o livro Contos da Fadas de Perrault, Grimm, Andersen e outros, da Editora Zahar, parceira do blog.

Agradeço imensamente à Vanessa, dona do blog Fio de Ariadne, pela oportunidade. Ter nosso trabalho reconhecido e exposto para muitos leitores não tem preço. Agora é aguardar a divulgação do ganhador. Enquanto isso, ficarei por aqui, sonhando com a vitória, como Aline…

Acordei, dia lindo. Sol, céu sem uma nuvem. Dia das Crianças. Elas bem que mereciam esta paisagem soberba e alegre. Um show da mãe (generosa) natureza. Fui até o Campo de São Bento, ver o movimento, ver as crianças, pegar um pouco desta boa energia que tanto me faz bem. Pra acompanhar, pensei: – Vou levar um livro! Puxei o primeiro que vi na estante e, por uma dessas “coincidências”, era um da Ana Maria Machado: “Bem do seu tamanho”.


Livro em punho, ecobag de pano lindinha da Anima Mundi, lá fui eu pela estrada afora. Antes de ir para as reinações (não as de Narizinho, mas as minhas mesmo), uma passadinha na Igreja da Porciúncula de Sant´Anna, pra pegar uma benção de Nossa Senhora Aparecida, grande homenageada do dia, e dos santos protetores das crianças, ou Ibejis, o que, pra mim, é a mesma coisa. O importante é ser benção, não é?

No Campo de São Bento, visitei a feirinha de artesanato. Tantas coisas lindas e mais ainda as coisas para crianças e bebês. Só fez aumentar a vontade de ter meu filhote. Como não tenho e meu sobrinho já tá muito grandinho pra certos bibelôs, resolvi comprá-los pra outra criança: a minha. Comprei dois bonequinhos de pano muito fofos e bem feitos, os quais batizei de Ted e Lupi. Sim, me dou o direito de comprar o que eu bem entender no Dia das Crianças. Aliás, não só neste dia, mas em qualquer outro, porque eu mereço mesmo. :-)

Da feira fui direto pro parquinho, entupido da meninada correndo e gritando loucamente. Alguns diriam que era uma visão de Dante, mas eu não. Como já dizia “sir” Ronald McDonald, “amo muito tudo isso”. Fui olhando os pequenos se divertindo na pista de patins, no coreto (sim, o Campo de São Bento tem um lindo coreto, como nas cidades do interior!) e nos brinquedos elétricos. Eu disse elétricos, não digitais (não havia nenhuma criança com gameboy, ipod, ipad e outros Apples).

Eram brinquedos como o carrossel, o elefantinho e o carrinho de corrida, ideal para a criançada miúda (que não pode andar nos brinquedos para os maiores).


E o super-mega-hiper-master “carrinho que bate”? Oficialmente é chamado de Auto-pista. Na minha infância, brinquei muito sob as árvores grandiosas do Campo de São Bento e disputei muita corrida neste brinquedo, com a adrenalina a mil, fugindo dos meus amigos meninos, que sempre queriam destroçar os carrinhos das meninas (sempre a guerra dos sexos!).

Também me recordo do sobe e desce do carrossel com seus cavalinhos coloridos. Era um tempo feliz, sem pressa pra acabar.

E de como a gente ficava à beira do lago pescando peixinho com uma rede fininha. Pescávamos os peixes coloridos e os guardávamos num vidro de maionese com água. Bem pouco ecológico, confesso, mas como éramos felizes. O chafariz era um evento à parte. Esperávamos ansiosamente ligarem os jatos de água, parte por parte, até completar o último, mais alto, ao centro. Cheguei a passar um dia inteiro à beira do lago, desenhando o chafariz para concorrer num concurso promovido no local. Lembro ainda do desenho com toda nitidez e da minha mãe que me acompanhou, incansável, o dia inteiro: de manhã, na volta pra casa pra almoçar, e no retorno de tarde, pra que eu completasse minha obra de arte.

Agradeço a ela pelo incentivo à minha criatividade, ainda que eu não tenha ganho o concurso “por pouco”, como disseram os organizadores. Posso não ter ganho um prêmio, mas levei pra casa a certeza do meu talento, reconhecido de perto pelo olhar amoroso e companheiro da minha mãe.

Vi também nesta minha incursão no Dia das Crianças algumas não tão felizes, conflitos de família, pais agressivos, crianças bem mal-criadas. Mas é a vida, nem tudo é perfeito.

Sentei em um banquinho na sombra e fui curtir meu livro, comendo uma pipoca salgada. “Era uma vez uma menina. Não era uma menina deste tamanhinho. Mas também não era uma menina deste tamanhão. Era uma menina assim mais ou menos do seu tamanho.” Que surpresa! O livro falava de ser pequeno grande e ser grande pequeno. Tudo a ver com meu dia de criança no Campo de São Bento. Que bom que a vida é cheia de boas coincidências, como esta. E que ainda mora uma bela criança em meu coração, que tem o tamanho da minha espontaneidade, minha criatividade e minha alegria. E a sua criança, por onde anda?

Sempre gostei de praia, do mar, do sol, do verão. O calor nunca me incomodou. Enquanto todo mundo se queixava de desconforto, sempre me senti muito bem com as altas temperaturas. Foi assim desde menina e até onde a memória me permite acessar. No último verão, porém, neste glorioso Rio de Janeiro, tive que repensar minhas convicções a respeito das quatro estações. Tudo, claro, motivado pelos 45 graus que encaramos, com uma sensação térmica de 50 graus. Deserto perde.

Daí passei a curtir mais o clima temperado do outono. Ah que lindos dias o mês de abril nos reserva! Árvores floridas (sim, aqui as árvores não florescem na primavera e sim no outono, pode reparar), céus azuis contrastando com as montanhas imponentes da Cidade Maravilhosa. Dias claros, sem nevoeiros, límpidos, simplesmente claros.

Quando a gente é adolescente, sente uma atração pelos extremos. Tudo é intensidade: calor tem que ser muito, diversão idem, paixão ibidem. A gente sempre pende pra um único lado, uma opinião, um hábito, às vezes até, um vício. Mas o tempo traz novos ventos na vida, muda a nossa forma de pensar a partir das experiências que vamos adquirindo. É a tão falada maturidade. Começamos a relativizar as coisas, a ser mais flexíveis, pelo menos é isso que espera-se de um ser humano em evolução. É aquela boa e velha carta do tarot: a Temperança, que chega pra dar um tempero nas loucuras e arroubos do Louco.

Sinto-me em plena “temperança”. Amava o verão com toda a intensidade juvenil, mas, diante do Aquecimento Global, tive que me render e estou mais afeita às temperaturas amenas. Até o rosto, que antes eu expunha com vontade ao sol de meio-dia nas praias, hoje tento proteger a todo custo com filtros solares 60 e bonés (até porque luto pra fazer sumir um belo melasma que os anos de sol me deixaram de herança). É… o tempo passou, a pele reclamou e agora virei fã do caminho do meio, como Buda, do outono e seus dias lindos e da primavera com a promessa de tempos melhores.

Dizem que as fases da vida repetem as estações. A gente nasce na primavera (daí se diz que a pessoa completou mais uma primavera quando faz aniversário), cresce e fica jovem no verão, amadurece no outono, na meia-idade, envelhece e morre no inverno, pra depois recomeçar tudo de novo em uma nova primavera (são as novas encarnações que todos nós vivenciamos). É um ciclo, como é bem retratado no filme Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera, de Ki-duk Kim.

“Sol de primavera, abre as janelas do meu peito…”

A estação das flores chegou. É um convite a recriar a vida, sair da hibernação do inverno e recomeçar. Bom seria se a gente aprendesse a fluir no movimento harmônico das quatro estações. Sorrindo no verão, refletindo no outono, guardando forças no inverno e despertando novamente a vida em nós, a cada mês de setembro.

“Quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos…”

Eu e meu pai

Sou Shirley. Sou filha do Seu Joaquim e da Dona Jovelina. Quando eu era criança, meu pai fazia brinquedos pra mim. A gente não tinha dinheiro e ele sempre foi um grande inventor. Então, criava bambolês com mangueira de água, bichinhos de batata e chuchu, dinossauros de argila, pião de madeira, vulcãozinho de pólvora no dia de São João e muito mais. Minha mãe costurava e fazia minhas roupas. Um dia fez pra mim uma boneca Emília de pano e recheio igual a do Sítio do Picapau Amarelo! Meu pai também adorava contar histórias, muitas, inventadas ou repetidas. Eu sempre gostei de histórias.

Querida vó Emília

Cresci, mas meu pai continuou com as narrativas, agora as de família. Ele me contava da sua mãe. Uma mulher guerreira que veio sozinha de Portugal, esperou pelo namorado (meu avô, que veio depois), casou com ele e ficou viúva perto dos 40 anos, com cinco filhos pra criar. Ouvia as histórias desta mulher tão sofrida e fui aprendendo a amá-la e respeitá-la. Faz 7 anos me deu uma vontade de obter minha dupla cidadania portuguesa. Aí achei os documentos dos meus avós: passaportes, identidade, fotos antigas, certidão de 1890 e poucos que pedi pela internet! Nossa. Quanta história. Quanto mais eu sabia, mais perguntava a meu pai e certa vez me fiz uma promessa emocionada: um dia vou a Portugal, na cidade dos meus avós e vou procurar uma igreja lá e nela irei colocar uma flor, em homenagem a minha querida vó Emília.

Sr. Tito e sua esposa no Café

Pra minha surpresa, ano passado, meio de repente, resolvi ir a Portugal. Fui, levando na mala documentos que eu tinha e as histórias do meu pai na memória. Lá, em Lisboa, peguei um trem para a Guarda, cidade próxima à Forno de Algodres, localidade natal de meus antepassados. Na Guarda, onde pernoitei, um dono de restaurante soube da minha aventura e resolveu me ajudar. Deu-me uma carona até lá. O local exato chamava-se Cortiçô e para lá fomos. Um senhorzinho carregado no sotaque, a quem pedimos informação, também quis dar uma força e se ofereceu para ir dirigindo na nossa frente, nos guiando até um povoado em meio a belas montanhas. Lá, só havia um estabelecimento comercial, o Café do Tito. Entrei e havia duas senhorinhas portuguesas típicas, que me receberam curiosas. Apresentei-me contando que viera do Brasil e estava à procura da casa onde minha avó havia morado. Dizia meu pai: “Minha mãe morava numa casa de pedra, numa curva, na Lajinha, e embaixo criava cabra.”. Tinha esta imagem registrada na minha mente como uma fotografia. As senhoras se mobilizaram (mais ajuda!) e ligaram a todos os mais idosos da pequena aldeia para ver se alguém conhecia meus parentes. Nada.

Encontrei meus primos de segundo grau, Virgínia e João

Os minutos passaram e eu já me dava por satisfeita em ter chegado à cidade natal de meus antepassados, de onde eles partiram para tão longe para tentar uma vida melhor. Até que as senhoras lembraram de outra pessoa que tinha o mesmo sobrenome da minha avó: Ferreirinha. Chamaram-na. Eu tomava um café para aquecer o frio, quando entrou no local uma senhora e seu esposo. Ela me olhou curiosa e desconfiada perguntou quem eu era. Contei-lhe minha saga até chegar ali e os nomes dos meus avós e bisavós. De repente, ela se levantou e exclamou emocionada, estendeno os braços para me abraçar: “Você é minha parenta!”. Fiquei tão surpresa que nem sei o que falei. Afinal, havia ido lá procurar uma casa e acabei encontrando parentes que jamais imaginei. O mais incrível é que ela não morava lá. Estavam a passeio, para comemorar as festas da Páscoa. Mais uma vez fui ajudada pelo destino (e com certeza por minha avó a quem sempre pedi que me guiasse).

Porém, o mais extraordinário é que ela me disse que guardou consigo uma foto da minha avó quando jovem, com uma dedicatória para seus pais. Esta foto passou de mão em mão na família e veio parar na casa desta senhora. E ela sempre dizia a seu filho que não queria morrer sem entregar a foto para alguém da família da D. Emília. Ela me enviou a foto pelo correio um mês depois da viagem, mas infelizmente, por não ter sido registrada, a carta se perdeu (serviço péssimo o do nosso Correio!). Mas ela guardou uma cópia, então ainda tenho esperança de reconstruir a imagem com programas de computador.

A casa onde morou minha bisavó

Almoçamos juntas, ela me mostrou toda a cidade (meia dúzia de ruelas de pedra), me levou a casa de uma prima de meu pai, me guiou até o local onde morou minha avó e onde ainda havia uma placa na parede escrito “Passadiço da Lajinha”, como meu pai havia contado (a casa não existe mais). Por fim, me mostrou outro casebre onde havia morado minha bisavó! Que surpresa! A casa era a original, ainda de pedras rústicas, ainda com a portinhola embaixo para dar entrada ao criadouro de cabras. Ao lado havia uma plantação de oliveiras e a vista para um grande vale onde ao longe se via a Serra da Estrela, serra esta onde minha avó contava que se ouvia o uivar dos lobos à noite… Que emoção. Fotografei tudo, filmei tudo para que pudesse mostrar a meu pai na volta ao Brasil. Colhi flores amarelas no canteiro que ladeava a casa de minha bisa e fomos até a igrejinha de São Pelágio, padroeiro de Cortiçô. Lá, entrei, orei, depositei as flores com todo o meu amor e chorei…

Igreja de São Pelágio

Uma flor para minha avó

Tenho tanto orgulho de descender de um povo tão bonito e de uma mulher tão especial e forte, que lutou por seus sonhos, que trabalhou bravamente, que morreu doente quando eu tinha apenas 3 anos. Não lembro desta mulher incrível, mas sei que um dia ela já me pegou ao colo. Meu avó eu sequer conheci. Morreu de tuberculose quando meu pai tinha só 11 anos e deixou-lhe de herança a sabedoria para lidar com a terra e as plantas (meu avô era jardineiro e meu pai até hoje, se precisa cortar uma árvore, pede licença…).

Sou tão feliz em ter resgatado esta memória e por ter descoberto um pedacinho da nossa história em meio àquelas montanhas. Hoje em dia, me sinto brasileira e portuguesa, com todo orgulho, até porque finalmente consegui minha dupla nacionalidade! Fiz novos amigos, descobri primos perdidos na poeira do tempo e resgatei minhas origens. Obrigada, minha querida vó Emília, por me inspirar a ser uma grande mulher, como você foi e para sempre será em meu coração.

Minha história na Revista Sorria

Para coroar ainda mais minha alegria pelo reencontro com meus familiares e pela conquista da minha cidadania portuguesa depois de tanta luta, a Revista Sorria, da qual sou fã, contou a história desta minha descoberta em sua edição de agosto. Leia a matéria no blog da revista e se você, como eu, também sonhou um dia em descobrir suas origens, vá em frente. Vale a pena. Afinal, uma árvore só pode crescer robusta e frondosa se tiver raízes fortes e bem fincadas na terra.