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Archive for the ‘Memórias’ Category

Demorou pra eu escrever este post. Talvez Freud explique, afinal, vou falar da minha mãe. É maio, não é? É o mês delas. E especialmente é o mês da minha, que quase não está aqui pra comemorar esta data. Explico.

Em 2009 me vi frente a frente com o sentimento de quase perder minha mãe. E não foi nada agradável. Uma moto a atropelou e ela, com seus 38 quilos e 1,50 metros resistiu, bravamente por sinal. Entre um braço quebrado e várias escoriações, salvaram-se todos. Mas isso não é de espantar. Ela sempre foi uma fortaleza, uma fortaleza escondida na fragilidade da aparência e das emoções afloradas, mas, sim, uma fortaleza.

Todo mundo tem uma lembrança de medo de quando ia ao dentista ou ao médico quando criança, não é assim? Eu não. Minhas lembranças são tão boas. Minha dentista, a Dra. Cássia, era uma fofa que dizia que ia pegar minhas tranças pra ela. E no seu consultório tinha brinquedos legais e aquela casinha que a gente entra dentro. Brinquedo caro que eu nunca pude ter, então, quando minha mãe me levava lá com meu irmão, era uma festa pra mim.

Já o médico era o Dr. Jofre, um senhor careca que arregalava meus olhinhos e enfiava goela abaixo aquele palito pra examinar a garganta. Seu consultório ficava num prédio antigo do centro da cidade, com elevador de porta pantográfica e tinha um ar meio de livro de suspense. Sabe deus o que acontecia por trás daquelas portas antigas e corredores vazios. O cheiro do consultório era único. Lembro bem. Eu ia sempre lá com minha mãe quando tinha febre ou alguma daquelas doenças que toda criança tem.

Mas o que tem a ver o dentista e o médico com o dia das mães? Nada. E tudo. Tenho muitas lembranças destas idas e vindas ao dentista e ao médico com minha mãe. E uma das lembranças mais felizes era a volta do médico. A gente sempre passava numa padaria que ficava em frente a estação das barcas e ela comprava um pão em formato de meia lua. Era o máximo! Um pão de lua, verdadeira diversão pra uma criança. Pegávamos o ônibus e eu vinha pra casa deitada no colo dela, partindo o pão de meia lua quentinho com minhas mãozinhas e comendo, vendo a paisagem correr pela janela.

Em outra ocasião, lembro do leite morno que minha mãe me trazia na cama quando eu acordava. Era tão gostoso aquele calor do leite descendo pelo peito! Até hoje beber leite morno me dá uma sensação de proteção e bem estar. Lembranças tenras de muita nutrição, do corpo e do coração.

E o chá de folha de laranja da terra? Só minha mãe, criada na roça e conhecedora das ervas e plantas, sabia fazer o chá com gosto bom. Dissolvia uma coristina no copo, botava açúcar pra adoçar e me dava pra beber nos dias de gripe forte e dor de garganta. Calor, cuidado e proteção.

Minhas melhores lembranças de minha mãe estão ligadas a beberagens e comidinhas, como o prato de feijão fresquinho que ela me dava puro, só com farinha, na volta da brincadeira noturna na rua. O sabor daquele feijão literalmente “amigo” nunca vou esquecer. Aipim frito com café, banana frita, bolinhos feitos com o arroz de ontem, bolinhos de chuva que a gente comia vendo sessão da tarde e brincando de batalha naval… Boas lembranças, muito boas.

Por todas essas, dedico hoje este post a minha querida mãe. Temos muitas diferenças, temos muitas discussões, temos muitos conflitos. Mas temos também muito amor e união. E sei que pra onde eu for, levarei comigo sempre seu legado e seu exemplo de pessoa íntegra, trabalhadora, forte, corajosa e com uma imensa fé no Menino Jesus de Praga, São Judas Tadeu e sobretudo, Nossa Senhora da Conceição. Então, querida Virgem Mãe, te peço: abençoe minha mãezinha no dia de hoje e todas as mães deste planetinha azul.

E você, qual sua melhor lembrança de sua mãe? Contaí nos comentários. Vou gostar de saber. FELIZ DIA DAS MÃES!

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Participar de concurso literário é uma atividade recente em minha vida. Tudo começou com um conto que escrevi para o concurso da Livraria Cultura em 2008: Um gato, o mundo e a deliciosa imaginação infantil. Foi a Renata Cardoso, autora do A Fadinha Carolina, que me convidou e eu topei. E #curti. Depois disso, tomei gosto e sempre que aparece algum é motivo pra criar e botar a imaginação pra fluir.

O segundo foi o concurso do blog Fio de Ariadne e neste, para minha felicidade suprema, ganhei o primeiro lugar com o conto O sapato. Em novembro de 2010, participei de um concurso cultural do site Ortopé Eco e lá fui remexer nas gavetas da memória e nos arquivos da infância. De lá pesquei minha menina de tranças, que plantou um pezinho de feijão no copo com algodão molhado. Boas e ternas lembranças.

Saiu o resultado e, dessa vez, não levei. Uma grande pena porque os contos ganhadores virariam um livro. Lamentei muito. Talvez o regulamento não estivesse muito claro ou eu que não entendi bem, porque os ganhadores foram histórias-depoimento. E a minha era uma ficção, baseada em minha vida real, mas certamente, ficção. Enfim, não importa. O que realmente vale é o conto que nasceu. Mais um para meu repertório, que compartilho aqui com todos vocês, que me leem. Até o próximo concurso.

O pé de feijão

Nina chegou da escola radiante, segurando cautelosamente um potinho de vidro, onde se via um chumaço de algodão molhado. A mãe foi logo perguntando o que era aquela novidade. Decerto achou que seria mais uma bugiganga dessas que as crianças vivem a inventar e que, na sua opinião, só serviam pra entulhar a casa. Mas a menina, orgulhosa de si, jogou suas longas tranças para trás e foi logo explicando sua aula prática de ciências biológicas:

– Mamãe, hoje aprendi a plantar feijões! – e apontava o dedinho indicador para o algodão.

– Feijões? Só vejo aí um algodão ensopado. – retrucou a mãe meio descrente.

– Sim, você está vendo só o algodão, mas dentro dele tem um grão de feijão e a professora Cecília disse que, com o tempo, o feijão vai brotar e crescer. Será meu primeiro pé de feijão particular!

A mãe torceu o nariz e voltou para o fogão, afinal, o seu feijão estava no fogo a cozinhar. Havia mais o que fazer.

Nina procurou um canto na janela do seu quarto, para acomodar sua pequenina lavoura. Deitou na cama e ficou olhando o potinho, pedindo que o tempo fosse generoso e passasse bem rápido, para que a semente germinasse e crescesse logo.

– Cresce, cresce… cresce… – repetia baixinho em sua ansiedade infantil. E foi assim que um sono súbito foi tornando pesadas suas pálpebras, escondendo os olhinhos verdes da menina.

Adormeceu. E sonhou. Sonhou um sonho encantado, em que havia plantado um grão de feijão no jardim de casa. E, antes que o sol tivesse se posto, o pé de feijão já estava do tamanho do coqueiro mais alto que já vira no sítio do seu avô. Mais que ligeira, subiu pelo pé de feijão, folha por folha, subindo, subindo, cada vez mais alto. E, quanto mais subia, menor ficava sua casa vista lá de cima,

o jardim, as pessoas e até seu gatinho Flufi, que ficou tão minúsculo quanto uma formiga. Enfim, chegou nas nuvens.

– Onde estou? – perguntou a si mesma.

Uma gaivota de nome Fernão, que passava naquele momento, foi quem parou seu vôo para responder:

– Você está no céu, ora, nunca viu?

– Ver eu já vi, mas lá de baixo, não aqui pertinho.

– E pra onde você vai? – perguntou a gaivota meio apressada, pois estava de viagem marcada para conhecer o mundo.

– Não sei, só plantei um pé de feijão e ele cresceu tanto que cá estou.

– Bem, se já está aqui, que tal seguir viagem comigo? – sugeriu a gaivota.

– Mas não tenho asas, nem sei voar. – respondeu.

– Ora, isso é bem fácil. – e num movimento de asas jogou sobre a menina um pó luminoso como

relâmpago em dia de tempestade, encolhendo-a de repente.

– Como você fez isso? – perguntou surpresa, enquanto saltava do pé de feijão e se ajeitava nas costas da ave.

– Tenho meus truques – retrucou a gaivota, piscando o olho, enquanto voou rasgando uma nuvem branquinha, que mais parecia o algodão em que a menina havia plantado o feijão.

Saíram pelo céu azul, planando sobre florestas, rios caudalosos, cachoeiras, desertos, vales cheios de flores e imensas montanhas pelos cinco continentes. E Nina aprendeu sua melhor lição: a natureza era a maior herança que o planeta poderia lhe deixar.

Subitamente, quando estavam descendo num vôo rasante sobre o mar, gotas de água molharam seu rosto. A menina acordou com seu gatinho a lamber suas bochechas. Esfregou os olhos,

voltou-se para a janela e lá estava seu pé de feijão. Um pequeno broto começara a nascer e Nina sorriu satisfeita:

– É minha primeira arvorezinha! – exclamou feliz.

Era só a primeira árvore, das muitas que plantaria pela vida afora, quando chegasse o tempo de amadurecer.

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Amo gatos. Quero deixar claro que amo esses bichanos desde que me entendo por gente. Eu, a Dra. Nise da Silveira e tantos outros. E se você odeia gatos (num sei como tem gente que consegue isso), esse post não é lugar pra você. Ou talvez seja… Não, não o expulso daqui, pelo contrário, o convido. Convido a olhar para estes pequenos seres peludos e dengosos com um pouco mais de humanidade.

Ouço muita gente dizer que “gato é bicho traiçoeiro” e outras baboseiras semelhantes. Mas, vou te falar, nada melhor que um gato pra entender a gente e fazer aquele chamego na hora que estamos mais por baixo que sola de sapato!

Sempre tive gatos. Tudo começou com uma gatinha que apareceu em casa. Eu devia ter uns 8 anos, suponho. Chegou e eu me encantei. Foi amor ao primeiro ronronar! A bicha era tão incrível que subia no meu colo, deitava a cabeça em meu ombro e abraçava meu pescoço com a patinha. Eu me achava a mais especial das pessoinhas por ter uma gata que mais parecia gente. Ela cresceu, cresceu e, como diz na Bíblia, se multiplicou. Teve a primeira ninhada. A segunda. A terceira! Quando vi, havia nada menos que 14 gatos convivendo conosco em casa. Pra mim era uma festa. Já minha mãe pensava um pouco diferente…rs Um dia a gata me abandonou e foi morar no vizinho. Rejeição infantil foi pouco! Mas fiquei com os outros 13, até minha mãe exigir que meu pai levasse os felinos pra miar em outras praças.

Os anos se passaram. Tive diversos outros. Cada um tinha uma personalidade, um jeito de ser. Gosto de psicologia e isso se aplica aos animais. Sempre curti analisar o jeito singular de cada um. Com um deles eu até treinava telepatia… Coisas de pisciana-meio-bruxa-que-adora-gatos. :-) Tive um cão só na vida, o Tobi, que se escondia debaixo da cama quando a gente pegava o balde pra dar banho nele. Mas como fui meio que atacada pelo cachorro da vizinha, peguei um trauma e agora prefiro ficar longe dos cães até que me provem que posso confiar neles.

Hoje, depois de um longo jejum de gatos em casa (sempre minha mãe a embarreirar os bichanos), estou com a Nina. Ela não é linda? (Ai de você se disser que não! rs). E espero que ela continue nos dando as alegrias que os animais nos transmitem. Para pessoas idosas, como meus pais, um animal doméstico é um fator importante de tratamento anti-depressão. Pode apostar, o amor que eles nos permitem é muito curador. Meu pai conversa com a gata como se fosse sua neta. Minha mãe, como se fosse sua melhor amiga. Enfim, Nina chegou, conquistou a todos e virou parte da família.

E se você anda procurando um gatinho ou um cão, não compre um. Adote. Há muitos animais pelas ruas, abandonados, humilhados, maltratados. Infelizmente há ainda muita maldade no mundo e os animais, geralmente, são os que sofrem com as frustrações humanas. Pra ajudar você nisso, sugiro que dê uma passadinha no Campo de São Bento pra ver a feirinha que um pessoal muito bacana faz por lá todo primeiro sábado do mês.

Os animais são uns fofos e te olham com aquela carinha de “me leva pra casa” irresistível. Os organizadores da feira são uns abnegados do bem, que recolhem os animais nas ruas, levam pra casa, tratam e tentam arrumar um lar pra eles. Precisam de ajuda também pra comprar ração e outros cuidados. Se você quer fazer algo bom por alguém, taí uma boa chance.

Contribua, adote-os (minha Nina foi achada na rua e colocada pra adoção pela internet). Deus –  e São Francisco de Assis, protetor dos animais – haverá de recompensar você em dobro, com garantia de muitas lambidas, balançar de rabinhos quando chegar em casa ou barulhinhos de ronronar e enroscadas em suas pernas. Não tem preço tanto amor. Desfrute. Adote um animal e seja bem mais feliz.

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Acordei, dia lindo. Sol, céu sem uma nuvem. Dia das Crianças. Elas bem que mereciam esta paisagem soberba e alegre. Um show da mãe (generosa) natureza. Fui até o Campo de São Bento, ver o movimento, ver as crianças, pegar um pouco desta boa energia que tanto me faz bem. Pra acompanhar, pensei: – Vou levar um livro! Puxei o primeiro que vi na estante e, por uma dessas “coincidências”, era um da Ana Maria Machado: “Bem do seu tamanho”.


Livro em punho, ecobag de pano lindinha da Anima Mundi, lá fui eu pela estrada afora. Antes de ir para as reinações (não as de Narizinho, mas as minhas mesmo), uma passadinha na Igreja da Porciúncula de Sant´Anna, pra pegar uma benção de Nossa Senhora Aparecida, grande homenageada do dia, e dos santos protetores das crianças, ou Ibejis, o que, pra mim, é a mesma coisa. O importante é ser benção, não é?

No Campo de São Bento, visitei a feirinha de artesanato. Tantas coisas lindas e mais ainda as coisas para crianças e bebês. Só fez aumentar a vontade de ter meu filhote. Como não tenho e meu sobrinho já tá muito grandinho pra certos bibelôs, resolvi comprá-los pra outra criança: a minha. Comprei dois bonequinhos de pano muito fofos e bem feitos, os quais batizei de Ted e Lupi. Sim, me dou o direito de comprar o que eu bem entender no Dia das Crianças. Aliás, não só neste dia, mas em qualquer outro, porque eu mereço mesmo. :-)

Da feira fui direto pro parquinho, entupido da meninada correndo e gritando loucamente. Alguns diriam que era uma visão de Dante, mas eu não. Como já dizia “sir” Ronald McDonald, “amo muito tudo isso”. Fui olhando os pequenos se divertindo na pista de patins, no coreto (sim, o Campo de São Bento tem um lindo coreto, como nas cidades do interior!) e nos brinquedos elétricos. Eu disse elétricos, não digitais (não havia nenhuma criança com gameboy, ipod, ipad e outros Apples).

Eram brinquedos como o carrossel, o elefantinho e o carrinho de corrida, ideal para a criançada miúda (que não pode andar nos brinquedos para os maiores).


E o super-mega-hiper-master “carrinho que bate”? Oficialmente é chamado de Auto-pista. Na minha infância, brinquei muito sob as árvores grandiosas do Campo de São Bento e disputei muita corrida neste brinquedo, com a adrenalina a mil, fugindo dos meus amigos meninos, que sempre queriam destroçar os carrinhos das meninas (sempre a guerra dos sexos!).

Também me recordo do sobe e desce do carrossel com seus cavalinhos coloridos. Era um tempo feliz, sem pressa pra acabar.

E de como a gente ficava à beira do lago pescando peixinho com uma rede fininha. Pescávamos os peixes coloridos e os guardávamos num vidro de maionese com água. Bem pouco ecológico, confesso, mas como éramos felizes. O chafariz era um evento à parte. Esperávamos ansiosamente ligarem os jatos de água, parte por parte, até completar o último, mais alto, ao centro. Cheguei a passar um dia inteiro à beira do lago, desenhando o chafariz para concorrer num concurso promovido no local. Lembro ainda do desenho com toda nitidez e da minha mãe que me acompanhou, incansável, o dia inteiro: de manhã, na volta pra casa pra almoçar, e no retorno de tarde, pra que eu completasse minha obra de arte.

Agradeço a ela pelo incentivo à minha criatividade, ainda que eu não tenha ganho o concurso “por pouco”, como disseram os organizadores. Posso não ter ganho um prêmio, mas levei pra casa a certeza do meu talento, reconhecido de perto pelo olhar amoroso e companheiro da minha mãe.

Vi também nesta minha incursão no Dia das Crianças algumas não tão felizes, conflitos de família, pais agressivos, crianças bem mal-criadas. Mas é a vida, nem tudo é perfeito.

Sentei em um banquinho na sombra e fui curtir meu livro, comendo uma pipoca salgada. “Era uma vez uma menina. Não era uma menina deste tamanhinho. Mas também não era uma menina deste tamanhão. Era uma menina assim mais ou menos do seu tamanho.” Que surpresa! O livro falava de ser pequeno grande e ser grande pequeno. Tudo a ver com meu dia de criança no Campo de São Bento. Que bom que a vida é cheia de boas coincidências, como esta. E que ainda mora uma bela criança em meu coração, que tem o tamanho da minha espontaneidade, minha criatividade e minha alegria. E a sua criança, por onde anda?

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Eu e meu pai

Sou Shirley. Sou filha do Seu Joaquim e da Dona Jovelina. Quando eu era criança, meu pai fazia brinquedos pra mim. A gente não tinha dinheiro e ele sempre foi um grande inventor. Então, criava bambolês com mangueira de água, bichinhos de batata e chuchu, dinossauros de argila, pião de madeira, vulcãozinho de pólvora no dia de São João e muito mais. Minha mãe costurava e fazia minhas roupas. Um dia fez pra mim uma boneca Emília de pano e recheio igual a do Sítio do Picapau Amarelo! Meu pai também adorava contar histórias, muitas, inventadas ou repetidas. Eu sempre gostei de histórias.

Querida vó Emília

Cresci, mas meu pai continuou com as narrativas, agora as de família. Ele me contava da sua mãe. Uma mulher guerreira que veio sozinha de Portugal, esperou pelo namorado (meu avô, que veio depois), casou com ele e ficou viúva perto dos 40 anos, com cinco filhos pra criar. Ouvia as histórias desta mulher tão sofrida e fui aprendendo a amá-la e respeitá-la. Faz 7 anos me deu uma vontade de obter minha dupla cidadania portuguesa. Aí achei os documentos dos meus avós: passaportes, identidade, fotos antigas, certidão de 1890 e poucos que pedi pela internet! Nossa. Quanta história. Quanto mais eu sabia, mais perguntava a meu pai e certa vez me fiz uma promessa emocionada: um dia vou a Portugal, na cidade dos meus avós e vou procurar uma igreja lá e nela irei colocar uma flor, em homenagem a minha querida vó Emília.

Sr. Tito e sua esposa no Café

Pra minha surpresa, ano passado, meio de repente, resolvi ir a Portugal. Fui, levando na mala documentos que eu tinha e as histórias do meu pai na memória. Lá, em Lisboa, peguei um trem para a Guarda, cidade próxima à Forno de Algodres, localidade natal de meus antepassados. Na Guarda, onde pernoitei, um dono de restaurante soube da minha aventura e resolveu me ajudar. Deu-me uma carona até lá. O local exato chamava-se Cortiçô e para lá fomos. Um senhorzinho carregado no sotaque, a quem pedimos informação, também quis dar uma força e se ofereceu para ir dirigindo na nossa frente, nos guiando até um povoado em meio a belas montanhas. Lá, só havia um estabelecimento comercial, o Café do Tito. Entrei e havia duas senhorinhas portuguesas típicas, que me receberam curiosas. Apresentei-me contando que viera do Brasil e estava à procura da casa onde minha avó havia morado. Dizia meu pai: “Minha mãe morava numa casa de pedra, numa curva, na Lajinha, e embaixo criava cabra.”. Tinha esta imagem registrada na minha mente como uma fotografia. As senhoras se mobilizaram (mais ajuda!) e ligaram a todos os mais idosos da pequena aldeia para ver se alguém conhecia meus parentes. Nada.

Encontrei meus primos de segundo grau, Virgínia e João

Os minutos passaram e eu já me dava por satisfeita em ter chegado à cidade natal de meus antepassados, de onde eles partiram para tão longe para tentar uma vida melhor. Até que as senhoras lembraram de outra pessoa que tinha o mesmo sobrenome da minha avó: Ferreirinha. Chamaram-na. Eu tomava um café para aquecer o frio, quando entrou no local uma senhora e seu esposo. Ela me olhou curiosa e desconfiada perguntou quem eu era. Contei-lhe minha saga até chegar ali e os nomes dos meus avós e bisavós. De repente, ela se levantou e exclamou emocionada, estendeno os braços para me abraçar: “Você é minha parenta!”. Fiquei tão surpresa que nem sei o que falei. Afinal, havia ido lá procurar uma casa e acabei encontrando parentes que jamais imaginei. O mais incrível é que ela não morava lá. Estavam a passeio, para comemorar as festas da Páscoa. Mais uma vez fui ajudada pelo destino (e com certeza por minha avó a quem sempre pedi que me guiasse).

Porém, o mais extraordinário é que ela me disse que guardou consigo uma foto da minha avó quando jovem, com uma dedicatória para seus pais. Esta foto passou de mão em mão na família e veio parar na casa desta senhora. E ela sempre dizia a seu filho que não queria morrer sem entregar a foto para alguém da família da D. Emília. Ela me enviou a foto pelo correio um mês depois da viagem, mas infelizmente, por não ter sido registrada, a carta se perdeu (serviço péssimo o do nosso Correio!). Mas ela guardou uma cópia, então ainda tenho esperança de reconstruir a imagem com programas de computador.

A casa onde morou minha bisavó

Almoçamos juntas, ela me mostrou toda a cidade (meia dúzia de ruelas de pedra), me levou a casa de uma prima de meu pai, me guiou até o local onde morou minha avó e onde ainda havia uma placa na parede escrito “Passadiço da Lajinha”, como meu pai havia contado (a casa não existe mais). Por fim, me mostrou outro casebre onde havia morado minha bisavó! Que surpresa! A casa era a original, ainda de pedras rústicas, ainda com a portinhola embaixo para dar entrada ao criadouro de cabras. Ao lado havia uma plantação de oliveiras e a vista para um grande vale onde ao longe se via a Serra da Estrela, serra esta onde minha avó contava que se ouvia o uivar dos lobos à noite… Que emoção. Fotografei tudo, filmei tudo para que pudesse mostrar a meu pai na volta ao Brasil. Colhi flores amarelas no canteiro que ladeava a casa de minha bisa e fomos até a igrejinha de São Pelágio, padroeiro de Cortiçô. Lá, entrei, orei, depositei as flores com todo o meu amor e chorei…

Igreja de São Pelágio

Uma flor para minha avó

Tenho tanto orgulho de descender de um povo tão bonito e de uma mulher tão especial e forte, que lutou por seus sonhos, que trabalhou bravamente, que morreu doente quando eu tinha apenas 3 anos. Não lembro desta mulher incrível, mas sei que um dia ela já me pegou ao colo. Meu avó eu sequer conheci. Morreu de tuberculose quando meu pai tinha só 11 anos e deixou-lhe de herança a sabedoria para lidar com a terra e as plantas (meu avô era jardineiro e meu pai até hoje, se precisa cortar uma árvore, pede licença…).

Sou tão feliz em ter resgatado esta memória e por ter descoberto um pedacinho da nossa história em meio àquelas montanhas. Hoje em dia, me sinto brasileira e portuguesa, com todo orgulho, até porque finalmente consegui minha dupla nacionalidade! Fiz novos amigos, descobri primos perdidos na poeira do tempo e resgatei minhas origens. Obrigada, minha querida vó Emília, por me inspirar a ser uma grande mulher, como você foi e para sempre será em meu coração.

Minha história na Revista Sorria

Para coroar ainda mais minha alegria pelo reencontro com meus familiares e pela conquista da minha cidadania portuguesa depois de tanta luta, a Revista Sorria, da qual sou fã, contou a história desta minha descoberta em sua edição de agosto. Leia a matéria no blog da revista e se você, como eu, também sonhou um dia em descobrir suas origens, vá em frente. Vale a pena. Afinal, uma árvore só pode crescer robusta e frondosa se tiver raízes fortes e bem fincadas na terra.

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A gente se conheceu sem que eu esperasse. Foi através de um amigo em comum, o Jorge. Ele vivia me falando do meu pretendente, de como seria ótimo eu conhecê-lo, de como a gente iria se divertir juntos, porque tinha tudo a ver um com o outro. Eu vivia por aí a contar histórias da família, coisas que me aconteciam, situações engraçadas, outras trágicas, cenas que eu via no cinema, na TV. Ele também sabia um montão de histórias. Como a gente nunca tinha se esbarrado antes?

O primeiro encontro aconteceu na biblioteca da escola, o antigo e tradicional Liceu Nilo Peçanha em Niterói. Eu tinha só 14 anos e era uma adolescente que vivia sonhando com um grande amor. Foi um encontro meio sem jeito, eu estava um pouco envergonhada, nervosa, desconfiada, nem sei. Mas o Jorge me encorajava:

– Vai! Anda, chega mais perto. Ele não morde, ora!

Lembro bem como foi. Lembro ainda do lugar, do cheiro inconfundível e de quando nossos olhares se cruzaram. Enfim, o amor… Amor de novela, de romance, de poesia, amor à primeira vista, à primeira página. Encontrei minha alma gêmea: o livro.

Essa narrativa, que alguns já conhecem, bem poderia ser o começo de um romance que contasse minha história com os livros. Uma história de amor com final feliz, como tantos contos de Cinderelas e Brancas de Neve. Esse casamento deu certo e já dura pelo menos 30 anos. É uma vida… mais que bodas de prata! Mas a sensação que tenho é que nosso amor está apenas começando e que temos ainda muita coisa linda pra aprender um com o outro, pra trocar, pra construir e crescer juntos.

Não tem livros, mas tem quadrinhos

Lá na minha meninice, eu não lia muito não. A minha família não tinha grana pra luxos e livro era supérfluo. Não que não tivesse importância, mas é que o feijão, o macarrão, o pão, valiam muito mais. Afinal, barriga vazia não entende das letras. Meus pais estudaram pouco e nunca se achegaram em livros. Então, o que lembro com clareza de contato com leitura foi em um livrinho de ilustrações, um dicionário pra quem estava aprendendo a ler. Lembro bem de uma cena em que meu pai lia as palavras pra mim, enquanto eu apontava as figuras. Foi desses momentos mágicos de contato entre pai e filha, que os psicólogos tanto falam que os livros proporcionam e incentivam.

Já com mamãe e história foi diferente. Ela me prometeu que, quando eu aprendesse a ler, me compraria revistinhas em quadrinhos. E cumpriu. Tenho até hoje uma caixa da minha coleção de revistinhas da Turma da Mônica, do Maurício de Souza, e do Sítio do Picapau Amarelo, da Editora Globo. Nossa, eu viajava nas aventuras da Mônica, Cebolinha, Cascão, Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Emília… Sim, até pelo Príncipe Escamado eu me apaixonei. Eu e meus amores impossíveis…

O reencontro

Já com mais de 30 anos, resolvi fazer uma pós e encontrei uma especialização na UFF em Literatura Infanto-Juvenil. Ao fazer a inscrição foi uma alegria tão grande, que entendi que meu caminho jamais poderia ser apartado dos livros. Neste curso finalmente conheci Lobato e suas Reinações de Narizinho, Luciana Sandroni, Ruth Rocha, Bartolomeu Campos de Queiroz, Sylvia Orthof e tantos outros. Mergulhei de volta em meu mundo infantil de aventuras, de reinos, de florestas encantadas… Voltei a sonhar.

Hoje, os livros são meus melhores companheiros. Aqueles que me alegram, me tocam, me ensinam, me emocionam. E lá na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, espero entrar ainda mais neste universo e alimentar com novas idéias e novos exemplares o fogo desta minha paixão. Afinal, neste caso de amor, vou deixar de lado o poetinha e seu “que seja eterno enquanto dure” (só?). Prefiro os contos de fadas, para sermos “felizes para sempre”.

Fotos: cadedigital.com

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Era maio de 1982. A gente esperava ansioso pela primeira Copa do Mundo onde íamos realmente torcer por um time e, mais ainda, por um jogador: Zico. Eu tinha só 12 anos e fazia parte do time dos mais velhos da molecada. Fomos pra casa de um amigo e lá preparamos a rua com bandeirolas e enfeites, sem contar a tradicional pintura no asfalto. O mascote, Naranjito, era uma simpática laranja, bem simples de desenhar. Ajudei no desenho com meus dotes artísticos e juntos pintamos o personagem. O sentimento de união era forte. Todos juntos trabalhando (e se divertindo, claro!) por um ideal, por um sonho. As crianças gostam de sonhar.

Rua pintada, bandeiras a postos e, pra melhorar, a mãe do meu amigo fez um concurso pra premiar a criança que estivesse com o número do jogador que fizesse o primeiro gol do Brasil. Pra não ter briga, cada um ficou com a camisa de acordo com a idade. A mim, que tinha 12 anos, coube a camisa 13, do Éder, um jogador que jogava na ponta esquerda, tinha poderosas pernas e soltava bombas dignas do Roberto Carlos. Por sorte minha, ele fez o primeiro gol da seleção canarinho e eu ganhei um brinde que nem lembro qual foi. Mas lembro bem da sensação de ter sido premiada. Ótima! :-)

Os jogos foram acontecendo e a turma toda se unia pra assistir junto. Até que, lembro nitidamente, o Brasil perdeu pra Itália de Paulo Rossi por 3 x 2. Aquela camisa da Azzurra nunca saiu da lembrança. Foi uma decepção muito grande pra todos nós, mesmo sendo crianças, ou talvez, principalmente por sê-lo, já que os sonhos infantis são bem mais intensos. A gente pintou tudo, preparou tudo e era “natural” que ganhássemos. Afinal, tínhamos Zico, o melhor do mundo.

Quando perdemos, senti uma raiva tão grande que peguei a bicicleta do amigo (eu não tinha uma) e saí a pedalar pela rua sem rumo, subindo uma ladeira como se fosse voar, assim como E.T. no filme de Spielberg. Meu irmão, mais velho e mais sábio, vendo minha revolta, me disse apenas: “Cuidado”. Acho que ele, diferente de mim, sabia que era só um jogo e que haveria outras e outras Copas do Mundo a disputar. Afinal, a vida é assim.

A Copa acabou, Zico foi puxado pela camisa (que chegou a rasgar) e não deram o pênalti, Naranjito foi se apagando do asfalto com os meses e tudo seguiu seu curso. Anos depois o Brasil ganhou o Mundial, foi tetra, penta, mas nenhuma outra Copa foi tão marcante quando aquela, tão divertida, nem tão inesquecível. Afinal, éramos só crianças.

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