Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Criatividade’ Category

Queridos amigos, lembram que eu estava concorrendo com um trabalho no 2º Concurso de Contos do Blog Fio de Ariadne? Pois hoje tive a feliz notícia que meu conto, O Sapato, foi escolhido o vencedor por um júri de blogueiros e pelas notas do público leitor do blog. Estou especialmente feliz, tanto pelo prêmio, um livro da Editora Zahar (livros sempre são ótimos presentes!), como pelo reconhecimento de outros leitores à qualidade do meu texto. Foi um prazer único. Agradeço a todos vocês que leram, comentaram e compartilharam meu conto. Muito obrigada, de coração!

Aqui está o conto vencedor. Deixo-o também registrado no meu blog, minha casa.

O Sapato

Andava de pés descalços no passeio ainda úmido pelo sereno da noite. O dia começava como todos os demais para a menina. Aline saía à procura dos restos que sobravam das festas na porta de um grande clube de São Paulo. O que fosse de comer ia direto para uma sacola rota que trazia ao ombro. O que fosse de valor, se é que é possível achar algo relevante no lixo, escondia no bolso da calça surrada.

Remexeu dentro de uma caixa de papelão na esperança de um pedaço de pão ou carne, descartada por algum convidado da festa na noite anterior. Festa chique! Aline vira, escondida por trás do muro, quando mulheres elegantes chegaram em vestidos de baile, esvoaçantes uns, brilhantes outros. Homens em ternos e casacas mostravam os benefícios que o dinheiro pode proporcionar. Aline dormira esperançosa, afinal, uma festa dessas deveria ter muita comida boa e a manhã lhe reservaria algo de proveitoso para seu estômago vazio.

Achou um docinho ainda inteiro – sorte! – que mandou logo pra dentro da boca, antes que algo de ruim pudesse acontecer e lhe tirasse aquele presente. Encontrou uma echarpe vermelha com um rasgo. Provavelmente alguma dama imprudente a descartara após danificar o tecido em uma dobradiça de porta. Guardou-a na sacola, pensando que talvez aquele pedaço de pano pudesse esquentar-lhe um pouco o corpo nas noites frias da cidade grande.

Separou o que podia, guardou o que merecia ser guardado. Já ia indo embora, quando, ali num canto, embaixo de um papelão molhado, pareceu ver algum brilho. Seria um anel, um relógio, um brinco perdido! Seu coração palpitou ante a chance de ser agraciada com tamanha surpresa. Levantou o papelão e viu. Primeiro a fivela cravejada com pedrinhas reluzentes, depois, o restante do sapato esquecido. Era de um tom de telha, um vermelho com ares de marrom, ou o contrário. Não importa. Mas a cor a fez lembrar do telhado da antiga casa do abrigo de onde fugira, dois meses após ter sido internada devido à morte da mãe. Sacudiu a cabeça como a tentar esquecer as más lembranças e apanhou o sapato de tecido forrado.

– Nossa! Que bonito! Quem terá esquecido? E como foi embora pra casa? Descalça? – Aline olhou seus pezinhos miúdos descalços na calçada fria e pensou: – Ah, não é nada tão terrível assim, eu mesma ando descalça por aí e não morri por causa disso.

Pareceu orgulhosa de sua conclusão, pegou o sapato e escondeu-o na sacola. Afastando-se do clube, dirigiu-se ao canto improvisado com papelão sob um viaduto, onde costumava se esconder do frio. Comeu o que havia conseguido em sua busca, enquanto olhava o volume do sapato dentro da sacola, imaginando quem o teria perdido e como. Talvez alguma mulher tenha fugido dos abraços de um homem mais afoito. Será que bebeu demais e tropeçou no jardim na hora de entrar no carro? Como saber? O que sabia era que agora ela era a dona do sapato mais bonito que já havia visto na vida. Apanhou-o e virou-o para examinar a sola. Viu um número. Apesar de não saber ler, conhecia os números e logo identificou: 38. Tinha um grande salto, bem fino:

– Como alguém consegue se equilibrar em cima disso? – pensou, ao mesmo tempo em que enfiou o pezinho sujo no sapato esquerdo, sobrando ainda uns quatro dedos de calçado vazio. Levantou-se e tentou ficar de pé. Era difícil, viu? Improvisou uma pose de dama rica, enquanto ordenava os serviçais imaginários a lhe servirem uma mesa farta de doces, bolos e refrigerante. Deliciou-se com esta visão e já começava a se sentir como as mulheres elegantes que vira na festa, com seus belos vestidos de baile e jóias.

Recostou-se no papelão e fechou os olhos pra ver melhor. De repente, entrava ela própria naquele baile, calçando não só um, mas o par de sapatos grená brilhantes e um belo vestido como jamais tinha visto. Entrou acompanhada por um belo e jovem rapaz, dançou, comeu, bebeu, sorriu como há tempos não fazia. No final do baile, se despediu do jovem que relutou em deixá-la ir. Ela correu por entre as árvores do jardim e, na pressa, deixou o sapato cair junto a uma roseira. Deixou-o pra trás e fugiu. Acordou assustada com alguém cutucando seu pé calçado no sapato.

– Aqui não é lugar pra mendigo. Pode ir circulando. – bradou o guarda com cara de pouca amizade. Aline pegou suas poucas coisas, seu precioso sapato e partiu, buscando outro lugar para sonhar.

Chegou meu prêmio!

Oba! Chegou o livro que ganhei como prêmio no Concurso de Contos. É lindão, uma edição bem acabada, com capa dura e ilustrações belíssimas. A Editora Zahar caprichou. E os contos são originais. Trabalho de alto nível. Vou ler com especial prazer. Muito obrigada mais uma vez!

 

Anúncios

Read Full Post »