Sou Shirley. Sou filha do Seu Joaquim e da Dona Jovelina. Quando eu era criança, meu pai fazia brinquedos pra mim. A gente não tinha dinheiro e ele sempre foi um grande inventor. Então, criava bambolês com mangueira de água, bichinhos de batata e chuchu, dinossauros de argila, pião de madeira, vulcãozinho de pólvora no dia de São João e muito mais. Minha mãe costurava e fazia minhas roupas. Um dia fez pra mim uma boneca Emília de pano e recheio igual a do Sítio do Picapau Amarelo! Meu pai também adorava contar histórias, muitas, inventadas ou repetidas. Eu sempre gostei de histórias.
Cresci, mas meu pai continuou com as narrativas, agora as de família. Ele me contava da sua mãe. Uma mulher guerreira que veio sozinha de Portugal, esperou pelo namorado (meu avô, que veio depois), casou com ele e ficou viúva perto dos 40 anos, com cinco filhos pra criar. Ouvia as histórias desta mulher tão sofrida e fui aprendendo a amá-la e respeitá-la. Faz 7 anos me deu uma vontade de obter minha dupla cidadania portuguesa. Aí achei os documentos dos meus avós: passaportes, identidade, fotos antigas, certidão de 1890 e poucos que pedi pela internet! Nossa. Quanta história. Quanto mais eu sabia, mais perguntava a meu pai e certa vez me fiz uma promessa emocionada: um dia vou a Portugal, na cidade dos meus avós e vou procurar uma igreja lá e nela irei colocar uma flor, em homenagem a minha querida vó Emília.
Pra minha surpresa, ano passado, meio de repente, resolvi ir a Portugal. Fui, levando na mala documentos que eu tinha e as histórias do meu pai na memória. Lá, em Lisboa, peguei um trem para a Guarda, cidade próxima à Forno de Algodres, localidade natal de meus antepassados. Na Guarda, onde pernoitei, um dono de restaurante soube da minha aventura e resolveu me ajudar. Deu-me uma carona até lá. O local exato chamava-se Cortiçô e para lá fomos. Um senhorzinho carregado no sotaque, a quem pedimos informação, também quis dar uma força e se ofereceu para ir dirigindo na nossa frente, nos guiando até um povoado em meio a belas montanhas. Lá, só havia um estabelecimento comercial, o Café do Tito. Entrei e havia duas senhorinhas portuguesas típicas, que me receberam curiosas. Apresentei-me contando que viera do Brasil e estava à procura da casa onde minha avó havia morado. Dizia meu pai: “Minha mãe morava numa casa de pedra, numa curva, na Lajinha, e embaixo criava cabra.”. Tinha esta imagem registrada na minha mente como uma fotografia. As senhoras se mobilizaram (mais ajuda!) e ligaram a todos os mais idosos da pequena aldeia para ver se alguém conhecia meus parentes. Nada.
Os minutos passaram e eu já me dava por satisfeita em ter chegado à cidade natal de meus antepassados, de onde eles partiram para tão longe para tentar uma vida melhor. Até que as senhoras lembraram de outra pessoa que tinha o mesmo sobrenome da minha avó: Ferreirinha. Chamaram-na. Eu tomava um café para aquecer o frio, quando entrou no local uma senhora e seu esposo. Ela me olhou curiosa e desconfiada perguntou quem eu era. Contei-lhe minha saga até chegar ali e os nomes dos meus avós e bisavós. De repente, ela se levantou e exclamou emocionada, estendeno os braços para me abraçar: “Você é minha parenta!”. Fiquei tão surpresa que nem sei o que falei. Afinal, havia ido lá procurar uma casa e acabei encontrando parentes que jamais imaginei. O mais incrível é que ela não morava lá. Estavam a passeio, para comemorar as festas da Páscoa. Mais uma vez fui ajudada pelo destino (e com certeza por minha avó a quem sempre pedi que me guiasse).
Porém, o mais extraordinário é que ela me disse que guardou consigo uma foto da minha avó quando jovem, com uma dedicatória para seus pais. Esta foto passou de mão em mão na família e veio parar na casa desta senhora. E ela sempre dizia a seu filho que não queria morrer sem entregar a foto para alguém da família da D. Emília. Ela me enviou a foto pelo correio um mês depois da viagem, mas infelizmente, por não ter sido registrada, a carta se perdeu (serviço péssimo o do nosso Correio!). Mas ela guardou uma cópia, então ainda tenho esperança de reconstruir a imagem com programas de computador.
Almoçamos juntas, ela me mostrou toda a cidade (meia dúzia de ruelas de pedra), me levou a casa de uma prima de meu pai, me guiou até o local onde morou minha avó e onde ainda havia uma placa na parede escrito “Passadiço da Lajinha”, como meu pai havia contado (a casa não existe mais). Por fim, me mostrou outro casebre onde havia morado minha bisavó! Que surpresa! A casa era a original, ainda de pedras rústicas, ainda com a portinhola embaixo para dar entrada ao criadouro de cabras. Ao lado havia uma plantação de oliveiras e a vista para um grande vale onde ao longe se via a Serra da Estrela, serra esta onde minha avó contava que se ouvia o uivar dos lobos à noite… Que emoção. Fotografei tudo, filmei tudo para que pudesse mostrar a meu pai na volta ao Brasil. Colhi flores amarelas no canteiro que ladeava a casa de minha bisa e fomos até a igrejinha de São Pelágio, padroeiro de Cortiçô. Lá, entrei, orei, depositei as flores com todo o meu amor e chorei…
Tenho tanto orgulho de descender de um povo tão bonito e de uma mulher tão especial e forte, que lutou por seus sonhos, que trabalhou bravamente, que morreu doente quando eu tinha apenas 3 anos. Não lembro desta mulher incrível, mas sei que um dia ela já me pegou ao colo. Meu avó eu sequer conheci. Morreu de tuberculose quando meu pai tinha só 11 anos e deixou-lhe de herança a sabedoria para lidar com a terra e as plantas (meu avô era jardineiro e meu pai até hoje, se precisa cortar uma árvore, pede licença…).
Sou tão feliz em ter resgatado esta memória e por ter descoberto um pedacinho da nossa história em meio àquelas montanhas. Hoje em dia, me sinto brasileira e portuguesa, com todo orgulho, até porque finalmente consegui minha dupla nacionalidade! Fiz novos amigos, descobri primos perdidos na poeira do tempo e resgatei minhas origens. Obrigada, minha querida vó Emília, por me inspirar a ser uma grande mulher, como você foi e para sempre será em meu coração.
Minha história na Revista Sorria
Para coroar ainda mais minha alegria pelo reencontro com meus familiares e pela conquista da minha cidadania portuguesa depois de tanta luta, a Revista Sorria, da qual sou fã, contou a história desta minha descoberta em sua edição de agosto. Leia a matéria no blog da revista e se você, como eu, também sonhou um dia em descobrir suas origens, vá em frente. Vale a pena. Afinal, uma árvore só pode crescer robusta e frondosa se tiver raízes fortes e bem fincadas na terra.









Querida e amada irmã é desnecessário dizer o quanto me emociono com esta sua aventura em busca de nossas origens. Trago em minha memória algumas lembranças de Vó Emília, já acamada, como uma foto estática. Ínfelizmente não pude partilhar desta sua conquista, mas é uma vitória sua, e fico muito feliz e lhe parabenizo pela coragem, pela determinação de se aventurar em um país distante, com a mala cheia de informações e o coração cheio de esperanças.
Talvez seja uma idéia legal mandar para nossos parentes portugues, um exemplar da revista, acho que eles ficariam felizes em ver um pedacinho da história da familia, impresso numa publicação brasileira o que não deixa de ser um registro no livro da História.
Beijo Grande
Sidinho, espero muito sinceramente que um dia eu possa te levar até Cortiçô, para que juntos caminhemos por aquelas terras. É uma emoção que não sei descrever. Tenho certeza que vó Emília olha por nós com carinho, onde ela estiver. bjs de coração.
querida amiga,
você sempre me emociona!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
que linda experiência você viveu!!!!!!!!!!!!!!!!!
são coisas que ficam no coração pra sempre. viu?
beijos
Rô
Muito legal buscar o passado Shirley, meu pai quando foi para o Japão à trabalho ele teve a oportunidade de conhecer a provincia da familia, mas não temos mais parentes por lá pois todos migraram para o Brasil fugindo da Guerra.
abraços,
Obrigada, Tiago, por passar por aqui. Sim, é uma resgate incrível. Espero ainda estender esta história por muitos anos daqui pra frente. Os laços, as raízes são importantes, pra nos dar a base na vida. bjs
Esse post é especialmente especial. Lindo!
Tem gente q prefere reclamar da vida, tem gente q prefere agradecer pela vida e família q tem. Também já fiz das minhas, mas não em Portugal (embora eu tenha um pé lá, tb), aqui em SP, mesmo: http://ovelhasincandescentes.blogspot.com/2010/08/era-um-cortico.html
Ola Shyrley !! Me emocionei ao ler o seu relato nesse momento!! E que me fez relembrar quando eu e minha mae fomos a terrinha dela ( Sao Martinho De Peva, fica no norte de Portugal, um pouquinho acima de Viseu em direcao ao Porto!! Em 2000), e fiz a mesma coisa, registrei com fotos e filmei a pura emocao, meio contida minha e da minha mae, mas mostrando aonde minha mae viveu, a aldeia dela (a qual lamentavelmente vai se tendo um futuro tenebroso como cidade fantasma!!), e minha mae depois de anos e anos que vivia aqui revivendo todo o seu passado ali e me mostrando alguns detalhes !! E uma pena Pq a cidadezinha vao se os idosos, e os novos nao ficam nas aldeias!! Acabamos conhecendo tanta gente. Eu conhecia parte da familia da minha mae a qual jah estava aki no Brasil (em SP). A que estava lah so conhecia de foto. E nem pudesse imaginar que poderia um dia conhecerlos todos pessoalmente. Foi uma pura emocao e alegria e felicidade conhecer-los pessoalmente, acabei que eu tb conheci a origem, a parte da familia tb, e toda a tradicao, a qual , eu tb fez a passar a gostar bastante dessa terrinha tao querida !! Parabens Shirley por esse lindo depoimento. E seja bem vinda a mais nova LUSO Brasileira !!