Feeds:
Posts
Comentários

Quando eu era menina, ficava olhando pela fresta da cerca de madeira a casa do vizinho de fundos. Ele era um senhorzinho que mais parecia um Preto Velho. Negro, cabelos grisalhos, fala rouca e mansa. Devia ter uns 80 anos talvez.

Minha mãe, que sempre foi uma pessoa que se importou com a pobreza e escassez alheia, mesmo não tendo ela própria os recursos que sonhou, todo dia à tarde dava ao homem um pouco do café que fazia. Ele passava sua caneca de alumínio amassada e velha pela cerca e minha mãe enchia de café, dando um pouco de calor e sabor aos dias daquele homem. Eu gostava daquele velhinho. Achava-o simpático e tinha algo de misterioso poder espiá-lo pela fresta da cerca. Sabe como são essas brincadeiras de criança, de ficar querendo desvendar os segredos escondidos…

O senhorzinho fazia aniversário no dia 4 de dezembro: dia de Santa Barbara, como minha mãe sempre ensinou. Ela repetia a cada ano que, no dia da santa, sempre caía temporal. Minha mãe tinha razão (e olhe que naquela época não tinha nem sinal de aquecimento global e mudanças climáticas!). Lembro que, nesta data, muitas e muitas vezes caía uma chuva bem forte, com direito a raios e trovões tão intensos que uma vez até vomitei, de tanto medo. Faltava luz e acendíamos velas. Minha mãe tampava os espelhos com panos, porque dizia que atraíam raios. E não nos deixava pegar em nada de metal durante os temporais. Deitávamos na cama e nos acolhíamos em seus braços, eu e meu irmão.

Só com o passar dos anos descobri que Santa Bárbara, no sincretismo com a Umbanda, é Iansã: a senhora dos ventos e tempestades. Finalmente entendi porque no dia 4 de dezembro sempre caía uma chuva torrencial (este ano não caiu, mas deve ser culpa das tais mudanças do clima!). Talvez fosse só a proximidade do verão, não sei. Mas o fato é que aprendi a respeitar, e muito, a rainha das tempestades. Por isso, em homenagem ao seu Guilherme, o senhorzinho que ganhava o café da minha mãe, já falecido, a Santa Bárbara e a Iansã, escrevi este post e deu a maior saudade da minha infância. Que as tempestades continuem varrendo as energias ruins pra longe e os ventos tragam pra nós boas energias. Eparrei, Iansã, eparrei!

Hoje é o Dia Nacional do Livro e quero começar este post declarando publicamente meu amor por livros, estes objetos de desejo e sabedoria. Minha história com os livros é diferente da de tantas outras pessoas, penso. Quando criança, não tive o hábito da leitura, porque meus pais não tinham grana pra comprar livros. Isso era artigo de luxo num lar onde nem geladeira havia (a gente pegava gelo no caridoso vizinho com um potinho de isopor, pra gelar nossos sucos). Então, não tive contato com livros infantis físicos. Mas histórias? Ah, as histórias. Estas sempre me cercaram de um jeito ou de outro.

Turma da MônicaMeu pai era um contador de histórias nato. Inventava enredos e me encantava, ativando minha criativa imaginação infantil. Já minha mãe, era mais pragmática. Ela dizia que, quando eu aprendesse a ler, iria me dar de presente revistas em quadrinhos pra eu me divertir. E cumpriu sua promessa. Comprou muitas nas bancas de jornal, de onde eu voltava de olhos brilhantes de alegria, sempre da Turma da Mônica (veja um vídeo clássico dos anos 70) ou do Sítio do Picapau Amarelo, que eu adorava não só ler mas ver todas as tardes na TV. As revistas eram minhas e do meu irmão. A gente sempre aprendeu a dividir tudo, o que nos fez pessoas menos egoístas e mais humanas, eu acho. Com o tempo, cresci e as revistinhas ficaram guardadas numa caixa. Guardo minha coleção carinhosamente até hoje.

A vida se encarregou de me fazer conhecer um amigo na minha adolescência, o Jorge Brasil, hoje jornalista, mas que sempre devorou pilhas de livros. Quando soube que eu não tinha hábito de ler, me puxou pelo braço e levou na biblioteca do colégio, onde me fez o grande favor de me apresentar aos livros da Agatha Christie. Disse: “– Escolha o que quiser.” Lembro que o primeiro que li foi “O Natal de Poirot”. Adorei e li muitos desta autora. Jorge sabia das coisas e me fez ler no início algo fácil e instigante, que me cativaria e criaria em mim o hábito da leitura. Depois, outros entraram no meu gosto, como José de Alencar, José Lins do Rego, Fernando Sabino e o impagável Machado de Assis, que considero meu verdadeiro professor de redação.

Anos mais tarde, sem querer me tornei redatora. Nesta época eu já lia de tudo, de bula de remédio a lista telefônica…rs E entendi porque eu gostava tanto de escrever cartões de natal e aniversário para os amigos na adolescência, sempre com mensagens extensas e cheias de emotividade. Eu já era escritora sem saber. Um belo dia resolvi fazer uma pós. “– Em quê?”, pensei. Em Literatura Infanto-Juvenil. Foi somente aí, neste curso, que vim ter maior contato com livros para crianças, aqueles que me faltaram na infância, e vou contar pra vocês: foi um grande prazer escolher, tocar e ler aqueles livros como se eu tivesse de novo 10 anos. Li Monteiro Lobato (que luxo!), Ana Maria Machado, Ruth Rocha e tantos mais. Minha criança interior ficou bem satisfeita, confesso. :-)

Sítio do Pipapau Amarelo

“Um país de faz com homens e livros.” Monteiro Lobato

Hoje é o Dia Nacional do Livro, repito. Uma data para ser comemorada com pomba e circunstância. Todo mundo deveria fazer a gentileza de dar um livro de presente a uma criança pelo menos uma vez na vida. É o maior presente que podemos oferecer, para estimular nossas crianças a serem adultos melhores.

Curtam este lindo vídeo e leiam sempre. Vale a pena.

Cosme e Damião“Ali tá dando! Ali tá dando! Coco de rato vai levando!” Era assim que eu e a meninada da minha infância brincávamos de enganar os coleguinhas no dia de Cosme e Damião. A festa era muito esperada. Eu e meu irmão saíamos cedinho pra correr atrás de doce. A gente andava pelo bairro catando casas, carros, pedestres, qualquer aglomeração que indicasse a presença daquelas delícias. O meu favorito sempre foi o tal “coco de rato”, mas também gostava de suspiro, cocada branca, pirulito, bala juquinha – amo até hoje! – e outras iguarias. Eu e meu irmão não pegávamos os doces e comíamos na hora. A gente era disciplinado. Corria pra levar o saquinho pra casa. Juntava todos na mesa e contava no final do dia o resultado de nossos esforços! (A cada ano o desafio era pegar mais saquinhos que no ano anterior.) Depois, despejávamos numa tigela e íamos comendo os que a gente mais gostava. Era efetivamente “doce” o sabor daquela vitória.

Certa vez, com uma amiga, peguei carona num ônibus que passava na minha rua e que deixou a garotada entrar pela porta da frente, afinal era dia de Cosme e Damião. Eu fui. Mas, não me dei conta de que a volta não seria tão fácil quanto a ida. Descemos no Campo de São Bento e tentamos achar os cobiçados doces, mas não vimos ninguém oferecendo. Quisemos ir embora mas os ônibus de lá não nos deram carona de volta. Senti um frio na barriga: – Como iria voltar pra casa? Lembrei de uma conhecida de minha mãe que morava perto e fomos lá pedir ajuda, eu e minha amiga. O filho dela nos deu o dinheiro para pagar a passagem. Quando a gente é criança não tem muita noção dos perigos. Mas deu tudo certo, afinal, Cosme e Damião protegem os pequeninos!

Este ano, fui numa festa no meu centro e senti uma vontade enorme de comprar uns doces pra dar, até como forma de agradecimento pela proteção que minha mãe teve no seu acidente. Mas tinha que ser naqueles saquinhos de papel de antigamente. Hoje em dia até o saco de Cosme e Damião é de plástico! Mesmo quando se fala tanto de reciclagem e sustentabilidade. Ah, não tem a menor graça! Fui numa loja de doces, comprei balas e pirulitos e achei o saudoso saquinho de papel com o desenho dos Santos. Fiz 10 saquinhos e no dia 27 de setembro, um domingo, saí pra levar minha mãe para um passeio na Florália e pensei em dar os doces pra alguma criança pelo caminho.

Chegando lá, avistei um casal com sua filha. Me aproximei e perguntei se poderia dar um saquinho para a garota. Resposta: “ah não, obrigada”. Não entendi bem a recusa, mas logo avistei outro casal que chegava de carro com os dois filhos. Perguntei novamente: – Oi, vocês aceitam um doce de Cosme e Damião? A mãe: ” Humm.. é melhor não”. Nossa! Nunca pensei que me recusariam os doces que, quando criança, eu sempre sonhei em ganhar muitos e muitos mais! Fiquei bem decepcionada, confesso, e cheguei à conclusão que as pessoas de classe média que frequentavam aquele lugar não iriam aceitar os doces. Decidi então guardá-los para dar na rua, para as crianças carentes que ficam aos montes peregrinando nesta data.

Deixei a sacola no carro e fui entrar para ver as plantas. No meio do caminho, havia um stand com uma campanha: “Adote um animal”. Fui lá olhar e ver se havia gatinhos (que eu amo!), mas só tinha alguns cães pra adotar, uns amputados, outros filhotes, outros mais com carinha de pedinte, que era difícil resistir. Junto deles, um grupo de crianças especiais: um cego, uma na cadeira de rodas e outros com deficiências físicas e mentais. Uma jovem segurava um filhotinho de cachorro preto e eu me abaixei pra fazer um carinho no bicho. Foi então que lembrei dos doces! Perguntei: – Você quer uma bala, um doce? A menina fez que sim com a cabeça. Voltei no carro, trouxe os saquinhos e, feliz, distribuí a todas aquelas crianças que, mesmo sem conseguir falar direito, pelas inúmeras limitações que tinham, se esforçaram para dizer um simples: obrigado!

Esse é o verdadeiro espírito de Cosme e Damião! Saí de lá me sentindo nutrida e feliz, como quando saboreava os queridos doces de minha infância. E, pra completar a alegria, dois dias depois chego em casa do trabalho e havia um saquinho de doce na minha cômoda (foto)! A vizinha me dá desde que eu tinha tranças. Isso já faz mais de 30 anos… Sabe, eu cresci, mas quando a gente tem fé, Cosme e Damião não esquecem da gente. Salve todas as crianças! Salve Cosme e Damião!

“Ele estava apaixonado e ansioso por encontrá-la. Ela se vestiu com sua roupa mais bonita e perfumou-se. Aguardavam por isso há muito tempo, até que finalmente chegou a hora e o encontro se deu. Amaram-se como nunca antes…” Este bem poderia ser o início de uma história de amor, mas foi só a inspiração que me veio com o belo eclipse solar total que aconteceu esta semana.

Foi um desses espetáculos da natureza que só ocorrem após longos anos e que, por mais tecnologia que haja no mundo, ainda provocam em nós o sentimento primitivo de que somos bem pequenos diante da vida e seus mistérios. Foi um belo encontro de amor, entre Sol e Lua… :-)

Lembro de minha infância, quando houve um eclipse parcial do sol. Não foi tão impressionante como este mas, para minha curiosidade infantil, foi um momento inesquecível. Subimos eu, meu pai e irmão num morro perto de casa, para termos uma visão melhor do sol de fim de tarde. Estávamos munidos de pequenos retângulos de vidro fumê que nosso pai providenciara, para olhar o espetáculo diretamente sem prejudicar a vista, já que aquele eclipse não era total e havia muita luz solar. Lembro da meia lua negra encobrindo parte do sol e da excitação daquele momento. As crianças sempre se encantam com as coisas da vida e da natureza.

E por falar em crianças, atualmente, estou escrevendo uma nova história infantil e nela o sol é um tema presente. Há uma menina, há um girasol… mas finalmente eu parei num ponto onde não encontrava saída para o personagem. Ao ver o eclipse esta semana, tive um ótimo insight – nesses momentos criativos espontâneos que vivemos tendo por aí – e acho que encontrei um bom desfecho para a história… Em breve, espero terminá-la e divulgar a vocês.

Deixo aqui no blog a bela imagem deste eclipse solar, visto por muitos na Índia e outros países da Ásia. Por lá, há muitas crenças relacionadas ao fenômeno, umas ligadas à cura de doenças e outras a maus presságios. Mas como alguém pode crer no mau diante de tamanha beleza? A natureza é mesmo única e especial. E o amor do Sol e da Lua é inspirador, não acham?

eclipse solar

Hoje é o Dia do Amigo, uma data que sempre lembrei e comemorei, muito antes de virar modinha na internet com cartões virtuais e e-mails de lojas de varejo tentando vender produtos. Pra falar a verdade, naquela época nem tinha internet ainda. É, isso faz tempo!

Amigo pra mim sempre foi das coisas mais preciosas da vida. Presentes pra se guardar mesmo do lado esquerdo do peito. A todos vocês, meus AMIGOS, aos que já se foram e deixaram muita saudade…, aos que estão distantes, aos presentes, aos que só falo pelo computador, aos que me compreendem, outros nem tanto… O que importa é que AMO VOCÊS, de todo o meu coração. E não conheço forma mais bonita de falar isso que não seja com esta linda história (alguns de vocês já a conhecem, mas vale a pena reler). Para vocês, ofereço o melhor de mim. Feliz Dia do Amigo!

“Serapião era um velho mendigo que perambulava pelas ruas da cidade. Ao seu lado, o fiel escudeiro, um vira lata branco e preto que atendia pelo nome de malhado. Serapião não pedia dinheiro. Aceitava sempre um pão, uma banana, um pedaço de bolo ou outro alimento qualquer. Quando suas roupas estavam imprestáveis, logo era socorrido por alguma alma caridosa. Mudava a apresentação e era alvo de brincadeiras.

O mendigo era conhecido como um homem bom que perdera a razão, a família, os amigos e até a identidade. Não tomava bebida alcoólica e estava sempre tranqüilo, mesmo quando não recebia nada de comida. Dizia sempre que Deus lhe daria um pouco na hora certa e, sempre na hora que precisava alguém lhe estendia uma porção de alimentos.

Serapião agradecia com reverência e rogava a Deus pela pessoa que o ajudava. Tudo que ganhava, dava primeiro para o malhado, que, paciente, comia e ficava esperando por mais um pouco.

Não tinham onde passar as noites; onde anoiteciam, lá dormiam. Quando chovia, procuravam abrigo embaixo da ponte do ribeirão. Ali o mendigo ficava a meditar, com um olhar perdido no horizonte. Aquela figura era intrigante, pois levava uma vida vegetativa, sem progresso, sem esperança e sem um futuro promissor.

Certo dia, um homem, com a desculpa de lhe oferecer umas bananas, foi bater um papo com o velho mendigo. Iniciou a conversa falando do malhado, perguntou pela idade dele, mas Serapião não sabia. Dizia não ter idéia, pois se encontraram num certo dia, quando ambos perambulavam pelas ruas.

– Nossa amizade começou com um pedaço de pão – disse o mendigo. Ele parecia estar faminto e eu lhe ofereci um pouco do meu almoço e ele agradeceu, abanando o rabo, e daí, não me largou mais. Ele me ajuda muito e eu retribuo essa ajuda sempre que posso.

– Como vocês se ajudam? – perguntou. – Ele me vigia quando estou dormindo; ninguém pode chegar perto que ele late e ataca. Também quando ele dorme, eu fico vigiando para que outro cachorro não o incomode.

Continuando a conversa, o homem lhe fez uma nova pergunta:

– Serapião, você tem algum desejo de vida?

– Sim – respondeu ele. – Tenho vontade de comer um cachorro quente, daqueles que tem na lanchonete da esquina.

– Só isso? – indagou.

– É, no momento é só isso que eu desejo.

– Pois bem, disse-lhe o homem, vou satisfazer agora esse grande desejo.

Saiu e comprou um cachorro quente e o entregou ao velho. Ele arregalou os olhos, deu um sorriso, agradeceu a dádiva e em seguida tirou a salsicha, deu para o malhado, e comeu o pão com os temperos.

O homem não entendeu aquele gesto, pois imaginava que a salsicha era o melhor pedaço.

– Por que você deu para o malhado, logo a salsicha? – interrogou, intrigado.

Ele, com a boca cheia, respondeu:

– Para o melhor amigo, o melhor pedaço. – e continuou comendo, alegre e satisfeito.

O homem se despediu de Serapião, passou a mão na cabeça do cão e saiu pensando com seus botões: aprendi alguma coisa hoje. Como é bom ter amigos. Pessoas em que possamos confiar. Por outro lado, é bom ser amigo de alguém e ter a satisfação de ser reconhecido como tal. Jamais esquecerei a sabedoria daquele mendigo.

E você, que parte tem reservado para os seus amigos?”

Autor: Inocêncio Viégas

Quando eu era pequenina de pé no chão, eu cortava papel fino pra fazer balão e o balão ia subindo para o azul da imensidão… Eu tinha tranças compridas como nenhuma outra menina da minha rua. Sim, eram tranças de verdade, que eu usava o ano todo, mas que ganhavam uma importância toda especial nas festas de são João. As minhas amigas usavam aqueles chapéus feiosos de palha com trancinhas coladas. E eu tinha o maior orgulho das minhas tranças naturais! Não foi à toa que me botaram o apelido de “Trancinha”. :-)

Esses dias cheguei em casa pensando em escrever este post sobre as festas juninas e qual não foi minha surpresa ao entrar na vila onde moro e ouvir as crianças gritando: vamos lá, na fogueira de são João! E ao longe avistei as chispas de fogo que iam subindo e clareando por cima do muro da casa do vizinho. Não tem jeito, a fogueira tem um fascínio sobre as crianças. Lembro bem, quando menina, da gente esticando os bracinhos para se aquecer no fogo e tentando saltar por cima da fogueira. O calor aquecia o corpo e o coração…

LP luiz gonzagaNas festas de minha infância tinha de tudo um pouco. A gente se unia pra enfeitar a vila. Buscava bambu num bambuzal distante, cortava bandeirinhas coloridas, passava blush (naquela época era rouge) e fazia pintinhas no rosto, pra parecer mais caipira. Aprendi a fazer balão lata e lembro ainda da textura da cola feita de arroz deslizando em meus dedinhos miúdos para colar o papel de seda. Era um grande trabalho, que não durava mais que cinco minutos, quando o balão “lambia” e caía do céu em chamas. Não tinha o menor problema, o grande barato era a criação e o trabalho de equipe.

Meu pai preparava o famoso “vulcãozinho” feito com pólvora que explodia de verdade e lançava “larvas” de fogo bem alto. O barulho era grande e a nossa algazarra pelo sucesso do experimento também. Morria de orgulho pelo meu pai inventor. Minha mãe tinha um LP, que eu consegui salvar de ser jogado fora, do grande Luiz Gonzaga. Nunca encontrei um disco de músicas de festa junina melhor do que aquele. A capa rosa escondia o pesado disco. Ainda hoje, ao apanhá-lo para fotografar e colocar aqui no blog, boas recordações me vêm. Taí, vou tentar tocá-lo no toca-discos, quando acabar de escrever o post (sim, pessoal, ainda há um toca-discos na minha casa, só não sei se toca naquela rotação antiga). Eram noites felizes aquelas e agora procuro dessas festas tradicionais sem encontrar. As festas juninas de agora não têm nada de caipira. Esquecem até dos três santos homenageados nos festejos: Santo Antônio, São João e São Pedro.

caipiraLembro de uma festa, quando eu tinha por volta de 5 anos talvez. Botei um vestidinho vermelho quadriculado que minha mãe fez. Tinha uma rendinha branca e eu fiquei muito vaidosa vestida de caipira (foto). :-) Nesta época, ainda não havia as famosas trancinhas e sim cachos. De repente, alguém resolve me fotografar. Fiz uma pose e… click! Quando vi a foto, a surpresa: uma meia estava lá em cima e a outra cá embaixo. “– Poxa! Uma caipira tão bonita com as meias ‘erradas’! Porque a pessoa que tirou a foto não viu e pediu pra ajeitar? – pensava eu. Durante muito tempo, aquelas meias fora do lugar me incomodaram muito. Eu olhava a foto e só via as meias tortas. O resto da imagem, não era o foco.

O tempo passou e agora eu entendo que caipira é bagunçado mesmo. Aliás, quanto mais bagunçado melhor, não é? Que coisa mais perfeccionista querer consertar as meias da caipira! Alguns anos foram necessários e um pouco de arteterapia pra eu ver a beleza do torto, do diferente, do imperfeito, do surpreendente e aceitá-la como algo natural. Deixem que minha caipira seja como quiser! Aliás, as meias estavam tortas justamente porque, naquela festa, eu brinquei, corri, fui criança e vivi a vida com a alegria das festas de São João. Então, que me importam meias simétricas? O bom é pular a fogueira, rodar a saia, dançar a quadrilha e ser livre para experimentar tudo isso. Então, amigos, que tal juntarem-se a mim neste refrão? “– Salve a imperfeição! E viva São João!”

Michael vive

Michael Jackson Michael se foi. Foi antes da hora. Pelo menos da hora que eu e todos os seus milhares de fãs gostaríamos. Foi, mas deixou sua música, sua dança, sua criatividade e genialidade como nenhum outro. Para mim, de todos ele foi o maior. Um artista completo.

Muitos momentos felizes vivi ao som de suas canções e outros tantos de espanto e medo, como na primeira vez que vi Thriller. O Fantástico anunciou amplamente e todos esperávamos ansiosos pelo momento da exibição do novo videoclip do astro com efeitos muito especiais.

Lembro que me sentei no chão, bem perto da TV, para ver melhor. Paguei o preço. Quando apareceu um close daquele lobisomem horrível tomei o maior susto da vida! E, acreditem, até hoje eu tenho medo de lobisomem! É sério, não riam. E por razões óbvias, desculpem, não vou botar foto daquilo aqui no blog…rs Foi um trauma de infância que nem anos de terapia jamais resolveram. :-)  Até hoje não vejo filmes de lobisomem de jeito algum. Fui literalmente marcada pelo lendário e inesquecível Thriller.

Outro momento impactante foi assistir a Michael em sua apresentação nos 25 anos da Motown. Incrível ver meu ídolo, já naquela época, deslizando no palco como a flutuar em sua iniguilável coreografia “moonwalker”. Para uma menina que sempre amou dançar, foi quase um momento de iluminação! No dia seguinte, eu e todas as crianças da rua tentávamos repeti-lo, nem sempre com sucesso.

Michael nos deixou marcas, lembranças, memórias visuais e sonoras. Fez a trilha sonora de muitos momentos de todos nós. Deixou sua arte, sua grande capacidade e talento. Ainda hoje, brilha. Precisava inclui-lo neste meu blog. Por isso, aqui fica uma singela homenagem para quem, para mim, viverá para sempre. Revejam o vídeo, afastem o sofá da sala e vamos dançar!

 

Faz um mês que estou envolvida com o Dia dos Namorados, por conta de trabalho. Passei os últimos 30 dias lendo histórias de amor, imaginando cenas românticas, vendo fotos de milhares de casais felizes e escrevendo, escrevendo muito: sobre almas gêmeas, primeiro beijo, loucuras de amor e afins. Quando me deram o job pensei: Ferrou! Afinal, mergulhar no mundo do amor pra quem está sozinho não é lá muito agradável. Desde pequeno a gente é condicionado a acreditar que um dia vamos encontrar nossa cara metade, casar e sermos felizes. É assim nas novelas, nos filmes, sempre amores lindos e tocantes, uns dramáticos, outros de superação. Só que nem sempre acontece e muitas vezes bate aquela sensação de fracasso: “o que eu fiz de errado que não aconteceu?”.

Mas… (e mesmo nestas coisas de amor, sempre pode ter um mas) aos poucos fui descobrindo que a pesquisa e o contato com o tema, ao contrário do que pensava, estava era me fazendo bem. Tive vontade de ver filmes de amor e peguei vários esses últimos dias. Uns excelentes. Mas, chamou-me a atenção ver que na maioria os casais não terminavam juntos. Ou morria o homem, ou a mulher. Ora de tumor no cérebro (“P.S. Eu te amo”), ora de leucemia (“Um amor para recordar” e “Doce novembro”), ou ainda de outras desgraças. Uma amiga sempre me diz que o casal de “Titanic” só é modelo de amor, porque o mocinho morre no naufrágio. Afinal, eles não conviveram, não tiveram seus momentos de dificuldades juntos, nem contas pra pagar, filhos pra educar, etc. “Assim é fácil amar!” Será por isso os finais com tantas perdas? Talvez os roteiristas possam explicar. Talvez as histórias precisem de finais inusitados, fora do lugar comum e, se todo mundo acabasse feliz pra sempre, como nos contos de fadas, que graça teria? Talvez não desse tanta bilheteria. Sinceramente? Às favas com as bilheterias… Será que não há amor possível com seus prazeres e também com as dores?

Hoje vi “Diário de uma paixão” e seguramente foi o mais tocante de todos os filmes desta minha fase “apaixonada”. Ninguém morre! Ufa! Mas… a mulher sofre de uma doença degenerativa que lhe tira a memória. É bonito ver a dedicação do homem, que se muda para o asilo para ficar perto de sua esposa e contar-lhe toda sua história de amor registrada em um diário. Seu intuito é fazer com que se recorde dele, o homem que sempre a amou. Por poucos minutos, ela lembra e revivem momentos mágicos, mas que logo cessam. É tocante esta cena, quando a memória da mulher foge e ele se desespera, tentanto fazer sua amada “voltar”. O filme tem cenas lindas também. A mais poética é quando os dois ainda jovens passeiam de barco num lago com centenas de patos. Uma imagem que acalenta e merece ser guardada.

diário de uma paixãoSão roteiros assim que nos fazem voltar a acreditar que o amor existe e desejar isso pra gente, principalmente nestes tempos de encontros tão fugazes e vazios. Um amor que vive dificuldades reais, mas que se perpetua, apesar de tudo. Anos atrás, um amigo me contou uma história romântica, que também fala de obstáculos, dores e perdas. Mas no final, o amor realmente vence. Gostaria de tê-la escrito, mas como não o fiz, pelo menos a compartilho aqui com vocês. Feliz Dia dos Namorados!

“Certa feita, o cravo encontrou a rosa. E, neste momento, descobriram o amor. Logo surgiu a primeira adversidade, os espinhos da rosa impediam que o cravo a abraçasse. Pois a cada tentativa, este feria-se. Muitas tentativas fez o pobre cravo para sentir totalmente a rosa e inúmeras e inúmeras vezes teve o seu caule ferido e suas pétalas rasgadas.

– Como posso viver a plenitude deste amor se não posso sentir a minha amada totalmente, como? Pensava o cravo.

A rosa desolada com tal situação pensava em sacrificar-se ao seu amor estirpando os próprios espinhos. Contudo sabia que se assim o fizesse, não viveria muito mais.

– Ah… tanto amor. Falou a rosa.
– Como te quero. Replicou o cravo.

Será que tal amor não veria o seu ápice nunca? Será que o Criador colocou-me com este sentimento o qual nunca viverei plenamente? Questionava o cravo.

Um dia, porém, uma criança brincando, ao chutar uma bola inadvertidamente, acertou o vaso onde estava o cravo projetando-o ao chão.

– Oh, meu amor! Exclamou a rosa já em prantos, achando ser essa a última vez que veria o seu amor.

Passado algum tempo, a mãe da criança apercebeu-se do acontecido e, na falta de outro vaso, replantou o cravo junto da rosa. O cravo necessitou de cuidados especiais, água, luz solar, nutrientes orgânicos e, após árdua recuperação, estava novamente belo e radioso. E muito mais próximo de sua amada. Contudo, perdurava o seu dilema. Não poderia abraçar a rosa. Mas isso já não lhe importava, graças ao “acaso”, ao cuidado daquele humano e ao amor que ele a rosa possuíam, suas raízes misteriosamente uniram-se e passaram então a compartilhar a forma de nutrir-se cada qual na medida exata para que os mesmos nutrientes vivificantes contidos naquela terra pudessem ser absorvidos e manter vivo a sua alma gêmea.

Benício, 05/06/1998”

“– Onde fica a Av. Almirante Barroso?” Perguntei ao colega do lado da minha mesa de trabalho. “– Ah, olha no Google Maps!” Dali a duas semanas, uma outra colega pergunta: “ – ´Cortiço´ se escreve com ç ou ss?” A resposta veio rápida: “ – Põe no Google pra saber.” Pensei: caramba, será que as pessoas não vivem mais sem o Google? Será que uma mera informação que eu precise não posso simplesmente perguntar a alguém de carne e osso em vez de pesquisar no computador? E enquanto pensava, eis que entra nova mensagem pelo MSN: “– Vamos almoçar agora?”  Quem enviou senta a apenas duas cadeiras da minha.

Faz dois meses, fui no show do A-ha no Rio de Janeiro. Lindo e emocionante, principalmente pra minha geração, que curtiu o ótimo som dos anos 80. Fazia tempo que eu não ia a um show ao vivo, porque aumentou muito o valor do ingresso, já que todo mundo tem ou falsifica sua carteiras de estudante (diga-se de passagem, usando bons softwares de edição de imagem). E foi grande meu espanto quando o grupo entrou no palco e centenas, pra não dizer milhares de braços se erguem com câmeras digitais pipocando flashes ou gravando o show em vídeo. Eu, que tinha levado minha velha Samsung, que comprei nos primórdios do lançamento das câmeras digitais, também levantei meu bracinho no meio da multidão insana. Tirei várias fotos sim! Mas… dos braços erguidos na frente do Morten… Tudo bem, vamos tirar fotos. Eu também amo fotografia. Mas filmar o show inteiro? Pra que a pessoa vai ao show se não consegue assistir a nada? Sim, porque se olhar para o palco, perde o enquadre da câmera. Então, você está lá, mas não está, porque assiste a tudo pelo pequeno visor da câmera digital. É praticamente um show virtual.

Esses dias, fui no almoço de aniversário do meu chefe. Estávamos numa mesa imensa, com umas 30 pessoas aguardando o demorado pedido chegar. De repente, ao meu lado, uma colega saca o celular pra twittar. Na cadeira em frente, outro esfrega as mãos nervosamente. Tinha esquecido o celular e não tinha com que se ocupar (mesmo tendo 30 pessoas disponíveis para conversa). E o orkut? E o MSN? Se eu for enumerar aqui quantos problemas e perda de energia já tive por causa de scraps, depoimentos, buddy pokes e outras parafernálias das mídias sociais, vocês pegarão seus lencinhos para enxugar lágrimas, amigos. Não, não farei isso com vocês, em nome das boas vibrações que desejo para este blog… :-)

Recentemente tive o prazer de viajar para Portugal e lá fui buscar a terra dos meus avós. Descobri uma aldeia perdida em meio a montanhas, depois de receber ajudas inesperadas e procurar pessoalmente,  perguntando a um e outro o caminho. Ao chegar num café, o único estabelecimento comercial do lugar, umas senhorinhas muito simpáticas me receberam e, ao saberem da minha busca, tentaram me ajudar. Não havia Google, nem nada parecido pra consultar. Passaram foi a mão no bom e velho telefone e saíram ligando pra todas as pessoas mais idosas da cidade, que poderiam ter alguma lembrança dos meus avós. Afinal, eles nasceram nos idos de 1890, quando nem se pensava em computadores! Tentaram, tentaram e nada. Então, mandaram alguém ir na casa de uma senhora e chamá-la para vir falar comigo. E foi assim que encontrei meus parentes perdidos, que nem sabia que tinha.

O filho desta senhora, meu primo de segundo grau, falou comigo por telefone: “– Como você achou a gente? Eu procurei na internet e nunca consegui localizar ninguém!” Ahhhhh, que prazer senti! Eu achei simplesmente porque fui até lá com minhas próprias pernas, levando documentos em papel (que eu obtive pela internet, ok, ok…mas também poderia ter conseguido pelo correio) e conversando com pessoas reais, de carne, osso e sentimentos. Quer dizer então que existe vida para além dos bites e bytes e que é possível viver além da tecnologia, como diz a bela imagem e campanha da TIM. [Aliás, essa mulher aí da foto é minha sósia ou o quê? :-) mãe ]

Vejam, não critico as benesses da tecnologia. Afinal, é dela que tiro meu ganha pão todos os dias, já que sou redatora web. Aliás, não fosse a internet você não estaria agora lendo este meu blog. Acredito e gozo das facilidades múltiplas da web e dos gadgets, mas os excessos me incomodam um pouco, confesso. Afinal, cada vez mais me comove uma boa contação de histórias para os ouvidos atentos do meu sobrinho de 7 anos, um bom livro que se lê folheando página por página, em vez de usar um leitor de e-book, um bate-papo num café com alguém interessante (sentindo o bom cheiro do café!), em vez de ficar horas num chat online.

Tudo bem, tem coisas que foram muito facilitadas com toda essa parafernália web. Na volta de Portugal, eu mesma entrei no Google Earth (sempre o Google!) e lá mostrei para o meu pai de 80 anos, que já não tem condições de pegar 8 horas de avião para ir à Europa, a imagem do satélite da cidade onde seus pais nasceram e que eu acabara de conhecer. Ele gostou muito e pediu pra ver outros locais do mundo, que nunca poderá ir pessoalmente: Jerusalém, as pirâmides do Egito… Foi uma tarde agradável, dando a volta ao mundo com meu velho pai em 80 cliques. Ando pensando em mandar por e-mail para meus parentes portugueses recém-conhecidos algumas fotos de minha família. Mas tive idéia muito melhor: vou colocar meu pai na webcam, para que ele fale ao vivo e conheça seus primos. Será um bom exemplo de como a tecnologia pode ser realmente útil e, por que não, afetiva.

Feliz ano novo!

aniversárioAcabo de fazer aniversário. Muitos diriam que completei mais um verão, mais um ano de vida. E em meio às reflexões que este evento acarreta, fiquei pensando: por que “completei mais um ano”? Por que não, “estou começando um novo ano”? Nossa tendência de olhar para trás e não adiante, fazer um inventário das experiências vividas, valorizar o que passamos e o que deixamos passar é sempre maior. E, do alto de minha mais nova idade, resolvi olhar pra outra direção e escolher diferente: quero um novo ano, um ano bom e de expansão.

Bom seria se a gente perdesse a memória para idades. Lembraríamos o que comemos ontem, o saldo do banco, o telefone do namorado, mas não quantos anos já percorremos. Digo isso não por estarmos “ficando velhos”, mas para que o peso dos números, cobranças e ansiedades não nos atormentassem tanto. Poderíamos sempre, simplesmente, celebrar o novo, um novo ciclo, uma nova etapa que inicia, nova jornada, novos horizontes. Mas este olhar o novo (e desconhecido) talvez seja o que menos fazemos por ser um tanto assustador. E mesmo os mais arrojados, que gostam da adrenalina do novo, de certa forma também o temem, pois o medo é parte do humano. A diferença é que temem, mas não se paralizam no medo. Como diria uma amiga, “colocam o medo ao lado, não na frente, e continuam caminhando”.

Gosto do mês de março, que sempre me traz estes novos ventos. É um segundo réveillon no ano. A energia é de renovação. E em paralelo é, de fato, o começo do ano novo na astrologia com a entrada do sol em Áries, signo da ação e dos inícios, mais precisamente ontem, 21 de março. Na vida cotidiana é também quando tudo recomeça: crianças voltam pra escola, as ofertas de cursos são fartas, enfim, o mundo recomeça a produzir após longas e merecidas férias com altas temperaturas nas praias.

menino maluquinho

Domingo passado acordei e, como de costume, liguei a televisão na TV Brasil. Já era bem tarde da manhã e começava a passar o insuperável “Um menino muito maluquinho”. Pra minha surpresa, o tema era – adivinhem! – aniversário. O Maluquinho contava como prometera jogar sua mamadeira no telhado quando fizesse 5 anos e como o tempo tinha passado tão rápido (obviamente ele não queria se desapegar daquele saboroso objeto de desejo). De fato, não é muito simples soltar as traquitanas que vamos acumulando com os anos. Mas se não fizermos isso, como abrir espaço pra algo novo? Que tal a mamadeira por uma bicicleta nova? 

No aniversário de 10 anos, Maluquinho ganha uma big festa, cheia de amigos e presentes e começa a vivenciar os impulsos juvenis na direção de uma bela moreninha. Ambos, que sempre foram amigos, de repente se descobrem “muito mais legais” um para o outro. É o tempo que passa com seus imperativos, também hormonais.

Foi um momento feliz e sincrônico, ver este episódio. Mas o melhor de tudo foi a dialética frase final com que o personagem, já adulto, encerra o programa: “O tempo nunca passa e a gente tem sempre todas as idades. O tempo passa e gente cresce.” É mesmo, cresci. Mas a menina que sonhava com uma bela festa de aniversário, ainda hoje, sonha em mim.

Postagens Antigas »